quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

VII Domingo Comum A - Amar os inimigos

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau. Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te pede emprestado. Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos. Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito». (Mt 5, 38-48)

Caros amigos e caras amigas, as páginas radicais do Evangelho revelam a verdade sobre o coração de Deus e o coração do homem. Jesus convida-nos a amar com a medida louca e excessiva do seu amor.

“Eu, porém, digo-vos”
Nunca ninguém falara assim. As palavras simples e concretas do Mestre encerravam uma força prodigiosa e revolucionária, quase um olhar sobre o impossível. Ele falava com a autoridade de Deus e com a misericórdia excessiva do Pai.
Jesus bem sabe que o discípulo não é um herói nem um poço de virtudes, mas que sofre na pele a queimadura da inimizade e reclama quando é roubado; que no seu íntimo ressoa o grito da injustiça e que não é um “triste” que se deixa conscientemente enganar. Mas também sabe que o amor é uma aposta, um compromisso a viver como Deus vive, sem esperar nada em troca, a não ser amor.

“Amai os vossos inimigos”
É belo amar aqueles que nos amam. Mas, Jesus cria um mundo novo e introduz um desequilíbrio na balança do dar e do receber. Os discípulos são convidados a amar em primeiro lugar, não para responder a um amor, mas para o antecipar. Sim, só um amor adiantado frutifica o amor. Somos rogados a amar até aquele que nos odeia, com a esperança apenas de reaver gratuitamente amor. Assim, sem cálculos e sem a simetria do dente por dente e olho por olho. Só para acelerar e precipitar o amor! Para isso “oferece”, “deixa”, “acompanha”, “dá”, “ama”, seja amigo ou inimigo! Trata-se de um amor de mãos concretas, de túnicas emprestadas e de caminhos partilhados. Para Jesus não há verdadeiro amor sem um “fazer amor”, de gestos operativos num sonho de perfeição.

Dar a outra face
Sempre que acontece, ficamos desarmados quando alguém nos dá a outra face; maravilhados quando para além do casaco encontramos um irmão; arrebatados quando somos perdoados antes de ter pedido perdão; boquiabertos quando alguém vê só as nossas virtudes ou proezas e é cego perante as nossas traves; somos realmente renovados quando Deus nos ama primeiro, sem razões e sem medida, e nos convida a alargar o coração, a sermos também multiplicadores de vida e de esperança.
Amar aqueles que não nos amam… é imitar Deus. É ousar a alteridade, é ter a coragem da diferença, é vencer com amor as lutas e medos do outro, é respirar o devaneio da perfeição divina.
Felizes, amigos e amigas, os que se atrevem a sonhar com a face de um mundo novo e estão dispostos a realizá-lo, porque nas suas mãos desabrocha o Reino de Deus. E isso é Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Aproveitarei todos os detalhes da vida para deixar crescer a semente da perfeição de Deus em mim.

REZAR A PALAVRA
Senhor, descubro em mim uma semente de verdade
que me convida ao amor, sem condições e sem fronteiras.
Que faço de extraordinário, quando pratico a minha justiça e não a Tua?
Que faço de extraordinário, quando limito o amor ao meu interesse?
Que faço de extraordinário, quando baseio a perfeição no mais fácil?
Que a Tua novidade, Senhor, me fascine, me acorde, me construa
e converta as minhas mãos nas tuas, o meu sorriso no teu.
Que a Tua novidade, Senhor, me fortaleça, me conduza, me liberte
e torne o meu ser espelho do teu amor sem limites.
Que me impede de deixar crescer a Tua semente de perfeição em mim?

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

VI Domingo Comum A - A lei do coração

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar. (…) Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos, por mais pequenos que sejam, e ensinar assim aos homens, será o menor no reino dos Céus. Mas aquele que os praticar e ensinar será grande no reino dos Céus. Porque Eu vos digo: Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus. Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que se irar contra o seu irmão será submetido a julgamento. Quem chamar imbecil a seu irmão será submetido ao Sinédrio, e quem lhe chamar louco será submetido à geena de fogo. Portanto, se fores apresentar a tua oferta ao altar e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão e vem depois apresentar a tua oferta. (…) Ouvistes que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher com maus desejos já cometeu adultério com ela no seu coração. Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e lança-o para longe de ti (…). E se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e lança-a para longe de ti, porque é melhor que se perca um só dos teus membros, do que todo o corpo ser lançado na geena. (…). A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’. O que passa disto vem do Maligno». (Mt 5,17-37)


Caros amigos e amigas, as palavras exigentes e fortes do Evangelho não são um apelo ao impossível, nem Jesus convida a uma moral que multiplica exigências, mandamentos e medos. O objectivo é voltar à fonte e ao sentido da vida: ao coração que é ícone da presença de Deus.

Completar e superar a lei
Jesus não é um anárquico que subverte a tradição, nem convida os discípulos a decorar o código de direito canónico do Antigo Testamento. Ele bem sabe que a lei se vive como dever e direito, obrigação e usufruto, com o risco do legalismo farisaico e de uma imperativa submissão. Mas para Jesus o homem é muito mais do que a letra! Quando há amor não são precisas leis. O amor, com os seus excessos e fantasias, exige perdão e renúncias, requer a paz com o inimigo, ultrapassa a lei, envolve toda a pessoa: as mãos e os gestos, os olhos e o ver, a boca e a palavra, a acção e a intenção.
Trata-se de uma lógica nova, a do coração, que não arranja desculpas para uma entrega plena e desmesurada. É uma lógica que não se satisfaz com um lifting externo, mas vai à raiz de cada coisa e requer transparência nas acções e desejos, nas palavras e comportamentos.
Jesus não convida à mudança da lei, mas à mudança e conversão do coração. É no coração que se decide a verdade mais radical do homem. E o Evangelho é dilatação do coração; é mais vida!

“Eu, porém, digo-vos...”
Talvez, só após terem visto o amor crucificado é que os discípulos encontraram o sentido destas palavras de Jesus. Talvez, só depois da maior prova de amor é que os amigos descobriram que o amor não serve para nada, a não ser para amar! Sim, assim sem leis nem preceitos, apenas com a loucura inconcebível do coração do Filho de Deus.

Viver o amor
Ser discípulo é antes de tudo uma questão de família, de irmãos, de casa de comunhão. As relações humanas são o lugar do verdadeiro culto a Deus. Não se pode celebrar a paternidade de Deus se antes os laços fraternos não foram restabelecidos, nem se pode rezar pacificamente a Deus se se profana o irmão. Para Jesus o altar do irmão precede o altar de Deus!
Amigos, só se carregarmos o peso e a alegria do outro, se lhe conhecermos as lágrimas e os sorrisos, se descobrirmos sempre nele um tesouro, se virmos nele a riqueza de Deus, então superaremos as leis impostas exteriormente. O “irmão” é sempre um oceano, um céu, uma profundeza irrepetível, um ícone do rosto divino. Ele completa com o seu amor o que falta ao nosso coração.

VIVER A PALAVRA
Comprometo-me a praticar e ensinar o mandamento do amor!

REZAR A PALAVRA
Bendito sejas, Senhor, única Palavra reveladora
que superas e completas o som de toda a Lei e dos Profetas:
Ilumina tudo o que sou e tenho com a luz intensa da tua perfeição.
Bendito sejas, Senhor, palpitação eterna da Verdade
que sintetizas tudo o que foi e é dito, no dizer eloquente do amor:
Purifica tudo o que proclamo e revelo, no fogo de amar sem medida.
Bendito sejas, Senhor, repousante meta, saciante plenitude,
que arrasas a superficialidade, os rodeios e a mesquinhez:
Consuma tudo o que procuro e edifico, na simplicidade de um sim.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

V Domingo Comum A - Sal e Luz

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Vós sois o sal da terra. Mas se ele perder a força, com que há-de salgar-se? Não serve para nada, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, onde brilha para todos os que estão em casa. Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus». (Mt 5, 13-16)

Caros amigos e amigas, as parábolas de Jesus têm a capacidade de dizer as maravilhas de Deus com palavras simples, referindo-se ao concreto da vida. Entre o mistério do Reino e os nossos pequenos acontecimentos quotidianos parece não haver distâncias: qualquer coisa pode falar-nos de Deus e ninguém é demasiado pequeno para demitir-se de dar sabor e glorificar o Pai dos Céus.

“Vós sois…”
Estas palavras incidem o coração. Quem me dera ter o olhar de Jesus para ver nos discípulos as sementes de beleza e o sabor da existência. Ele olha também para nós e, para além das trevas e limitações, vê muito mais do que uma vida insonsa e de pilhas gastas; vê a luz e o paladar que Deus faz nascer em nós. Não diz que o devemos ser, mas constata o ADN, a identidade luminosa e saborosa que somos. Sim, um vós plural, como família e comunidade, fora dos umbigos egoístas. Porque a luz nasce dos encontros e vive da beleza da comunhão. Porque o melhor petisco só sabe bem quando o outro está presente. Porque sozinho se caminha às escuras e uma cidade sem gente é um deserto sem vida. Mas quando se “reparte o pão com o faminto, se dá pousada aos pobres sem abrigo, então a tua luz despontará como a aurora e as tuas feridas não tardarão a sarar. Se tirares do meio de ti a opressão, a tua luz brilhará na escuridão e a tua noite será como o meio-dia” (Isaías).

“… o sal da terra”
O sal é aquilo que ascende da massa do mar respondendo ao luminoso apelo do sol. Assim também os discípulos ascendem respondendo à atracção da infinita luz divina (Ronchi). O Mestre recorda-nos que somos terreno fértil visitado pelo segredo das coisas e que fazemos parte da história do Filho de Deus que trespassa a nossa vida para lhe dar gosto.
Assim também somos sal, insignificância capaz de transformar o sabor da vida, se dispostos a desaparecer, não porque inúteis, mas para purificar, preservar, curar e encontrar-se apenas no outro.
“O Evangelho é sal, mas vós tornaste-lo açúcar” dizia Paul Claudel. Na verdade, o Evangelho queima os lábios e o coração, mas o drama hoje é um cristianismo sem Cristo, uma religião sem fé, um culto sem celebração, uma fé sem paladar, tépida e cinzenta, esquecida e escondida sob o alqueire.

“… a luz do mundo”
Ninguém pode olhar para o sol sem que o seu rosto não seja iluminado. Sim, amigos, há rostos habitados por Deus, porque não se pode estar exposto diariamente ao olhar da ternura infinita sem receber uma insólita beleza. Há rostos que irradiam luz sem o saber. Basta vê-los! É a eloquência dos gestos, do acolhimento, do brilho do olhar, dos sorrisos e das lágrimas, e percebemos que Deus está, que Deus é luz, e que o nosso coração está criado para a luz.
Reza um provérbio hebraico que “todas as trevas não conseguem apagar uma candeia; mas uma candeia sozinha ilumina todas as trevas”. Sim, as palavras de Jesus são luminosas e aclaram o coração. Quando somos discípulos do seu amor e reflexo da sua luz tudo se transforma, mesmo se ainda cegos pelo abismo do desespero ou pelo fumo das ilusões. É Ele a coluna de fogo que nos guia. É a claridade da sua face a rota dos nossos passos. É o perfume das suas palavras o doce Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Procurarei que os meus gestos sejam transparência da luz de Jesus e tenham sabor de Evangelho.

REZAR A PALAVRA
Senhor, mistério que dá sabor à minha vida, e conserva em mim a vontade de amar,
toma o sal frágil, que depositaste em meu ser,
e lança-o... lança-me para o campo que é Teu.
Senhor, fascínio de cor que afasta a minha escuridão
e abre horizontes no meu caminho de busca,
toma a pequena chama, que acendeste em meu ser
e levanta-a... levanta-me na “casa” que é a Tua.
Que eu incomode com a Tua Palavra, que eu alumie com o brilho do Teu amor em mim!