quinta-feira, 24 de março de 2011

III Domingo Quaresma A

Naquele tempo, chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José, onde estava o poço de Jacob. Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço. Era por volta do meio-dia. Veio uma mulher da Samaria para tirar água. Disse-lhe Jesus: «Dá-Me de beber». Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. Respondeu-Lhe a samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana?». De facto, os judeus não se dão com os samaritanos. Disse-lhe Jesus: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva». Respondeu-Lhe a mulher: «Senhor, Tu nem sequer tens um balde e o poço é fundo: donde Te vem a água viva? Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu, com os seus filhos e os seus rebanhos?». Disse-lhe Jesus: «Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede. Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente que jorra para a vida eterna». «Senhor, – suplicou a mulher – dá-me dessa água, para que eu não sinta mais sede e não tenha de vir aqui buscá-la. Vejo que és profeta. Os nossos pais adoraram neste monte e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar». Disse-lhe Jesus: «Mulher, acredita em Mim: Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos Judeus. Mas vai chegar a hora – e já chegou – em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são esses os adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito, e os seus adoradores devem adorá-l’O em espírito e verdade». Disse-Lhe a mulher: «Eu sei que há-de vir o Messias, isto é, Aquele que chamam Cristo. Quando vier há-de anunciar-nos todas as coisas». Respondeu-lhe Jesus: «Sou Eu, que estou a falar contigo». Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus, por causa da palavra da mulher. Quando os samaritanos vieram ao encontro de Jesus, pediram-Lhe que ficasse com eles. E ficou lá dois dias. Ao ouvi-l’O, muitos acreditaram e diziam à mulher: «Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos. Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo». Jo 4, 5-15.19b-26.39a.40-42

Caros amigos e amigas, a história da samaritana é a nossa história, feita de sedes, de encontros e de amores. É também a metáfora do nosso itinerário de fé. Jesus, com delicadeza e pedagogia, vem ao nosso encontro, chama-nos, fala-nos de fontes em plenitude e desperta em nós sonhos e mistérios esquecidos.

“Dá-me de beber”!
A samaritana, mulher de vários amores, vivia ainda no deserto do amor. Mas, no poço de Sicar, ela encontra o Esposo que procura a esposa perdida, vê o noivo que busca a humanidade sedenta, para a saciar.
É um Deus inesperado aquele que se apresenta junto ao poço da nossa vida, na pele de um viajante cansado. É um Deus sem pudor que vem à procura, toma a iniciativa e interpela. É um Deus com sede de nós, da nossa fé, da nossa atenção, do árido cântaro do nosso coração. Um Deus que se faz pobre e pedinte para saciar a nossa pobreza e educar a nossa sede.

“Se conhecesses o dom de Deus”!
Jesus cruza o olhar da mulher com um sorriso que não condena, não humilha, apenas ama. Fá-la nascer de novo e ela abandona o cântaro como se fosse um trapo velho. Jesus não nega à samaritana as pequenas alegrias do caminho, não desencanta a vida, não lhe rouba o sonho e a poesia. Apenas mostra que essas não chegam para saciar uma sede maior, que essas não são suficientes porque o coração é maior do que muitos oceanos. Jesus faz nascer nela a sede de céu, a fome de eternidade; fá-la passar do pequeno cântaro para a fonte da vida. Ele pede-lhe água e nela acende o fogo do amor de Deus. Ali no coração, verdadeira cidade santa, onde se adora em “espírito e verdade”. Nunca ninguém lhe tinha dito que ela era um templo divino de amor. O mundo tinha-se dividido entre quem a usava e quem a condenava. Mas Jesus é aquele que não fecha ninguém nos seus falhanços, mesmo que mais numerosos do que os maridos da samaritana, mas é fonte de natividades e de futuro, para que também nós cheguemos ao poço como mendigos de água, mas andemos ao encontro dos outros como pedintes do céu.

Ser fonte de água viva
A mulher de Samaria vai com um cântaro ao poço, mas regressa a casa e à cidade como uma nascente, como discípula, como epifania do rosto de Deus. Também nós temos de esquecer os cântaros velhos, as vidas que contém tão pouco, tão opacas e vazias, para correr a contar a todos acerca de um Senhor que faz levantar o olhar e faz brotar em nós, numa espiral de vida, uma primavera de esperança.
O dom de Deus não é ter um cântaro maior, nem é um poço mais profundo, mas é uma “água viva que se torna fonte para a vida eterna”. A fonte é água que se dá para a sede dos outros. A fonte é fecundidade, vida, abundância. O projecto de Deus é que cada um de nós seja fonte, para as sedes e ardores dos outros, com a delicadeza de um enamoramento divino. E isso, caros amigos, é Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Em cada sede, quero saborear o dom, a novidade do Espírito Santo em mim.

REZAR A PALAVRA
Senhor, fonte que responde a todas as minhas sedes: dá-me de beber!
É a tua água viva que quero que flua na composição orgânica da minha vida. Abre-me ao manancial de ressurreição que me brota desde a fonte baptismal.
Vem, torrente do Amor, da Verdade, da Alegria... da Salvação,
vem lavar-me da velhice do egoísmo e permitir-me a juventude de amar,
de tornar-me fonte também; vem seduzir-me a adoração que o Pai deseja.

sexta-feira, 18 de março de 2011

II Domingo Quaresma A

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele. Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O». Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito. Então Jesus aproximou-Se e, tocando-os, disse: «Levantai-vos e não temais». Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus. Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos». (Mt 17, 1-9)

Caros amigos e amigas, o relato da transfiguração indica a beleza do mistério da vida e a nossa identidade de filhos. A experiência do esplendor de Deus, naquela intimidade onde as palavras essenciais bastam e a vida resplandece, prepara-nos para o escândalo amoroso da cruz.

Do deserto ao Tabor
Jesus toma consigo três discípulos e sobe ao monte, ali onde o dia amanhece mais cedo e se pousa o último raio de sol. Ali, Ele faz resplandecer a existência, reacende a chama das coisas, faz luzir o amor, dá esplendor aos encontros. Ainda hoje, o Mestre nos convida também a passar dos nossos desertos para aqueles lugares de luz, de encontro, de beleza e harmonia. Mesmo se alternamos trevas e luz, sombras e sol, tentação e transfiguração, estamos destinados àquela beleza que une as pessoas, a lei, os profetas, a Escritura e o universo. A nossa vocação está em libertar toda a beleza que Deus colocou em nós. No caminho ascendente do Tabor, o rosto do outro é uma lâmpada que ilumina os meus passos quando, nas suas vestes e na sua vida, descubro sementes de ressurreição.

“Como é bom estarmos aqui”!
Sim, é bom estar ali onde o mistério da pessoa brilha e ilumina, onde as palavras revelam os tesouros do coração, onde a Palavra chama, faz existir, floresce a vida e a torna bela.
Sim, é bom estar ali onde o céu encontra a terra, o tempo a eternidade, onde a história converge toda num momento. É belo estar ali onde Deus e o homem se descobrem, onde a fragilidade humana vê a glória divina, onde o Pai pronuncia intimamente o nome do Filho.
Sim, amigos, é belo estar aqui, nesta humanidade grávida de luz que se vai transfigurando! É belo ser de Cristo e saber que não é a tristeza a nossa verdade, mas é a luz. A partir do monte luminoso da alma, uma história de luz transparece no rosto de quem acolhe o tesouro do outro. A contemplação do rosto de Cristo, ícone da beleza de Deus, ensina-nos a beleza que salva o mundo!

Transfigurados na beleza do Amor
Como Pedro também nós gostaríamos de acampar na montanha das nossas solidões e preguiça, e não descer ao vale da vida para enfrentar o cansaço da conversão e o escândalo da cruz. Mas Jesus recorda que há sempre uma luz antes da escuridão, que há uma transfiguração antes da crucifixão, para que no meio de qualquer escuridão permaneça a experiência e a recordação da luz, da palavra e da presença de Deus.
Dos três discípulos, apenas João, nas trevas do calvário, procurará entrever através dos furos dos pregos a luz gloriosa da ressurreição e, no corpo desfigurado do crucificado, procurará ver o sublime rosto de Deus. Naquela tarde, recordando a voz do Tabor, o discípulo amado reconhecerá nas palavras do centurião a verdadeira identidade do moribundo: “Ele é o Filho de Deus”. E isso, caros amigos, é Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Ante os sinais que, cada dia, o Senhor me proporciona, quero escutar a sua voz reveladora.

REZAR A PALAVRA
Senhor, como é bom estarmos aqui!
No monte do segredo onde palpita a beleza do teu amor,
na presença do mistério que revela a realeza da tua missão,
na surpesa da palavra que sustenta a vontade do teu projecto.
Senhor, como é bom estarmos aqui!
Na nuvem do eterno que abraça o meu ser vazio e sedento,
na tenda da história que abriga o meu viver vacilante e incerto,
na planície do medo que questiona a minha entrega total e progressiva.
Senhor, como é bom estarmos aqui!

quinta-feira, 10 de março de 2011

I Domingo Quaresma A


Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’». Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’». Então o Diabo deixou-O, e aproximaram-se os Anjos e serviram-n'O.» (Mt 4, 1-11)

Caros amigos e amigas, encontramo-nos na Quaresma rumo à Páscoa. Este tempo é de redescoberta da intimidade, da presença e da escuta do segredo divino: “conduzi-te ao deserto para te falar ao coração” (Oséias). E aí reavivar a nossa identidade e vocação de filhos de Deus.

Ser “conduzido pelo Espírito ao deserto”
O deserto não é apenas um lugar, mas é também uma metáfora da vida. Os desertos são lugares vazios de pessoas e de encontros. Contudo ali, onde aparentemente tudo grita uma aridez mortal e ninguém vive, está Deus. Ali, onde faltam as referências de orientação, onde o vento apaga as pegadas na areia, onde as miragens adulteram a verdade das coisas, pode-se todavia ainda viver da fé e experimentar o amor divino! “O deserto é Deus, o silêncio é a sua palavra. E o peregrino alimenta-se desta palavra” (provérbio Tuareg). Deus habita o nosso deserto, contagiado pela sublime folia da cruz!
Se, por um lado, o deserto é símbolo de vazio, sede e fome, renúncia de comodidades, por outro lado, indica uma liberdade desmesurada, a descoberta de um silêncio que é escuta, a capacidade de estar sozinho sob o olhar claro e amoroso de Deus. Ali, Ele toca-nos com o seu amor.

“Se és Filho de Deus”
As três tentações metem em jogo a relação filial de Jesus com o Pai, são um desafio entre dois projectos, são uma escolha entre dois amores. As tentações são a divisão do nosso coração feito de cinzas e de luz, são um convite a alimentar-se só de pão, a contentar-se com a própria história, a viver sem sonhos, a silenciar a voz de Deus. O silêncio é então quebrado por aquela insinuação diabólica que gostaria de minar a nossa confiança no Amor: “se és filho, onde está o teu Deus”? Todos sabemos que somos mendigos de pão, mas não podemos esquecer que somos também pedintes do céu e da eternidade, pobres da beleza e do amor. Doutro modo, a vida é uma saca cheia de pedras que se tornaram pão duro e amargo, e contentamo-nos com uma realidade estéril, fecunda só de desilusões e incapaz de alimentar as fomes da existência.

“Está escrito”
Nas três tentações Jesus convoca Deus ao seu lado e cada sua resposta é silabada e gritada com o alfabeto da Palavra de Deus: “está escrito...!”, está gravado no coração! Porque o que se escreve permanece, é promessa, é realidade! Ele sabe que não está só; é filho de um Pai que nunca o abandona.
O grande engano é acreditar que o tesouro da vida esteja num naco de pão, na folia do poder ou no excesso de sucesso. O engano é acreditar que assim se pode eliminar a fome do céu e de paz, a fome de justiça e de beleza. O maior engano é servir-se da vida caminhando nas palmas de anjos, sem avançar como crianças confiantes apenas na força com que nos aperta o abraço do Pai.
É com o fôlego da Sua palavra na minha boca, com o seu sopro vital no meu respiro, com o seu beijo criador no frágil barro de que somos feitos, que se atravessam as tentações.
Jesus não dialoga com o Diabo, mas contrapõe sempre um amor maior. O pão é bom e necessário, sacia o estômago, mas Deus sacia a vida. Por isso, “não tentarás Deus”! Ele está presente, mesmo quando cais dos pináculos vazios da vida. Talvez não como nós queremos, mas à sua maneira. E não para evitar a queda, mas para ajudar a erguer e a continuar. E aí fazer florescer o deserto. Isso, caros amigos, é Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Em cada investida da tentação, quero tactear a presença de Deus e n’Ele firmar a luta contra o mal.

REZAR A PALAVRA
Senhor, o pecado dispersa-me. Vem habitar as contradições do meu deserto.
Visita a minha fragilidade, areia vulnerável e volúvel, e firma-me no amor;
desmascara os mais recônditos abrigos do mal e a astúcia da tentação...
Contra a fome de possuir, educa-me no pão da Palavra e na saciante partilha;
contra o orgulho e a vaidade, alimenta-me da tua fidelidade amorosa;
contra a sede de dominar, dessedenta-me na alegria de um serviço generoso.
Quero aceitar a Vida que me destinas e que escorre do teu amor sem fim,
libertar-me do jugo do ‘eu’, orientar para ti a corrente da minha adoração.
Agradeço-te, Senhor, a doçura da tua misericórdia que me dá confiança...

terça-feira, 8 de março de 2011

Da Mensagem do Papa Bento XVI para a Quaresma 2011


Para empreender seriamente o caminho rumo à Páscoa e nos prepararmos para celebrar a Ressurreição do Senhor – a festa mais jubilosa e solene de todo o Ano litúrgico – o que pode haver de mais adequado do que deixar-nos conduzir pela Palavra de Deus?

O primeiro domingo do itinerário quaresmal evidencia a nossa condição de homens nesta terra. O combate vitorioso contra as tentações, que dá início à missão de Jesus, é um convite a tomar consciência da própria fragilidade para acolher a Graça que liberta do pecado e infunde nova força em Cristo, caminho, verdade e vida. É uma clara chamada a recordar como a fé cristã implica, a exemplo de Jesus e em união com Ele, uma luta «contra os dominadores deste mundo tenebroso». Cristo disso sai vitorioso, para abrir também o nosso coração à esperança e guiar-nos na vitória às seduções do mal.

No segundo domingo a comunidade cristã toma consciência de ser conduzida, como os apóstolos Pedro, Tiago e João, «em particular, a um alto monte». É o convite a distanciar-se dos boatos da vida quotidiana para se imergir na presença de Deus: Ele quer transmitir-nos, todos os dias, uma Palavra que penetra nas profundezas do nosso espírito, onde discerne o bem e o mal (cf. Hb 4, 12) e reforça a vontade de seguir o Senhor.

O pedido de Jesus à Samaritana: «Dá-Me de beber» (Jo 4, 7), que é proposto na liturgia do terceiro domingo, exprime a paixão de Deus por todos os homens e quer suscitar no nosso coração o desejo do dom da «água a jorrar para a vida eterna». Só esta água, que nos foi doada pelo Filho, irriga os desertos da alma inquieta e insatisfeita, «enquanto não repousar em Deus», segundo as célebres palavras de Santo Agostinho.

O quarto domingo, do cego de nascença, apresenta Cristo como luz do mundo. O Evangelho interpela cada um de nós: «Tu crês no Filho do Homem?». «Creio, Senhor» afirma com alegria o cego de nascença, fazendo-se voz de todos os crentes. O milagre da cura é o sinal que Cristo, juntamente com a vista, quer abrir o nosso olhar interior, para que a nossa fé se torne cada vez mais profunda e possamos reconhecer n’Ele o nosso único Salvador. Ele ilumina todas as obscuridades da vida e leva o homem a viver como «filho da luz».

No quinto domingo da quaresma, a liturgia da palavra apresenta-nos a comunhão com Cristo nesta vida que nos prepara para superar o limite da morte, para viver sem fim n’Ele. A fé na ressurreição dos mortos e a esperança da vida eterna abrem o nosso olhar para o sentido derradeiro da nossa existência: Deus criou o homem para a ressurreição e para a vida, e esta verdade doa a dimensão autêntica e definitiva à história dos homens, à sua existência pessoal e ao seu viver social, à cultura, à política, à economia.

Através das práticas tradicionais do jejum, da esmola e da oração, expressões do empenho de conversão, a Quaresma educa para viver de modo cada vez mais radical o amor de Cristo.
O Jejum, adquire para o cristão um significado profundamente religioso: tornando mais pobre a nossa mesa aprendemos a superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor; suportando as privações de algumas coisas – e não só do supérfluo – aprendemos a desviar o olhar do nosso «eu», para descobrir Alguém ao nosso lado e reconhecer Deus nos rostos de tantos irmãos nossos.

Em todo o período quaresmal, a Igreja oferece-nos com particular abundância a Palavra de Deus. Meditando-a e interiorizando-a para a viver quotidianamente, aprendemos uma forma preciosa e insubstituível de oração, porque a escuta atenta de Deus, que continua a falar ao nosso coração, alimenta o caminho de fé que iniciámos no dia do Baptismo.

O itinerário quaresmal, no qual somos convidados a contemplar o Mistério da Cruz, é «fazer-se conformes com a morte de Cristo» (Fl 3, 10), para realizar uma conversão profunda da nossa vida: deixar-se transformar pela acção do Espírito Santo, como São Paulo no caminho de Damasco; orientar com decisão a nossa existência segundo a vontade de Deus; libertar-nos do nosso egoísmo, superando o instinto de domínio sobre os outros e abrindo-nos à caridade de Cristo.
O período quaresmal é momento favorável para reconhecer a nossa debilidade, acolher, com uma sincera revisão de vida, a Graça renovadora do Sacramento da Penitência e caminhar com decisão para Cristo.

Renovemos nesta Quaresma o acolhimento da Graça que Deus nos concedeu no Baptismo, para que ilumine e guie todas as nossas acções.

Tempo para deus, Quaresma