sábado, 23 de abril de 2011

PÁSCOA - A



No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predilecto de Jesus e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos. (Jo 20, 1-9)

Caros amigos e amigas, o Domingo de Páscoa é o feliz anúncio que Jesus Ressuscitou. E a Ressurreição é uma experiência de vida, de caminho, de abrir os olhos, de encontro inesperado.

“De manhãzinha, anda escuro”
É ainda escuro, principalmente no coração de Maria, quando cedo se dirige ao sepulcro. Tudo parece silencioso e quieto. Os perfumes e as flores, bem como as lágrimas no olhar, são a expressão do amor pelo Crucificado. Acordada pelo amor vai ser testemunha de um mistério e de uma notícia: “Jesus não está onde o puseram”! Numa fracção de segundo a cena ganha vida, o fim torna-se início e, gradualmente, ela se apercebe que não é uma pedra que pode impedir o encontro com Aquele que abriu os céus para estar mais perto de nós. Nem será a morte a mortificar a Vida.
Amigos, não é fácil nem evidente acreditar na discreta e silenciosa ressurreição. Mais evidente é a crucifixão. O escuro e o medo dos discípulos assemelha-se ao meu e ao das nossas comunidades cristãs, bloqueadas em sexta-feira santa, acampadas no Calvário, sem ver a vitória do Ressuscitado para poder anunciá-lo. Mas, se o que nos faz acreditar é a cruz, aquilo em que nós acreditamos é a vitória da cruz (Pascal).

“Corriam depressa”
Porque será que todos correm naquela manhã? Correm porque o amor tem pressa, não suporta demoras, nem atrasos de comunhão. A vida urge, preme, não espera. Também eu tenho que aprender a correr, abandonando as lentidões, os medos das quedas, as resignações de uma vida sem ressurreição nem Páscoa.
Diz o Evangelho que “o discípulo que Jesus amava” correu mais depressa, talvez porque como reza o provérbio: “os justos caminham, os sábios correm, mas os enamorados voam”. É que a ressurreição lança a vida muito além, ali onde o homem não sabe andar e nada impede o caminhar.

“Ver e acreditar”
No sepulcro vazio não se dão miraculosas revelações. Apenas existem poucos e pobres sinais: “ligaduras no chão e o sudário enrolado”. O discípulo que entrou depois de Pedro viu e acreditou, talvez lembrando-se do dia em que Jesus afirmara: “tendes olhos e não vedes”! Sim, os sinais da ressurreição estão debaixo dos nossos olhos diariamente, mas nem todos os vêem, porque pretendem que Deus apresente as suas credenciais divinas, que prove cientificamente que é Deus. E nós deixámos de nos encantar diante da flor que brota, da criança que temos nos braços, do gesto de perdão e gratidão… A fé é dom, mas corresponde-lhe o empenho de “ler” na própria vida os “sinais” dos seus passos e acolher o mistério em alegre humildade. E, então, descobriremos que não apenas ressuscitou, mas que vive junto a nós, caminha connosco, partilha das nossas alegrias e tristezas, nos é até mais íntimo do que nós mesmos.

VIVER A PALAVRA
Vou acordar, cada manhã, com a certeza de que a morte é derrotada pelo dinamismo do amor!

REZAR A PALAVRA
Onde estás, Senhor?!!! Ainda me espanta o sepulcro escancarado;
às vezes quero conservar-te disponível para mim, mesmo que inerte...
Mas a Tua Vida despedaça trancas de morte que admitam controlar-te.
Tu, o Vivente, pertences ao inesgotável dinamismo da Criação.
Tu, Luz que fecundas cada irrepetível manhã, vem iluminar-me,
Tu, única Esperança que move, vem alvoroçar e orientar a minha pressa.
Quero acreditar e seguir o rasto de Vida que, só pelo amor, entenderei
e, numa explosão de alegria ser, em Ti, Luz, Esperança e Vida...

sábado, 16 de abril de 2011

Domingo de Ramos - Quaresma A



Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo: «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo». Tomou em seguida um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: «Bebei dele todos, porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado pela multidão, para remissão dos pecados». […] Jesus tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar-Se. Disse-lhes então: «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai comigo». […] Disse-lhes Pilatos: «E que hei-de fazer de Jesus, chamado Cristo?». Responderam todos: «Seja crucificado». Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no para levar a cruz de Jesus. Desde o meio-dia até às três horas da tarde, as trevas envolveram toda a terra. E, pelas três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte: «Eli, Eli, lemá sabactáni?», que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?». […] Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam Jesus, ao verem o tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram aterrados e disseram: «Este era verdadeiramente Filho de Deus».(Mt 26, 14 - 27, 66)


Caros amigos e amigas, a leitura deste Domingo é o coração do Evangelho: narra a paixão de um Deus apaixonado pelo homem. Na Semana Santa somos convidados a partilhar com Cristo não somente as alegrias, mas também as dores de amor. O pedido dirigido aos apóstolos no Getsémani - “Ficai comigo” - é mais do que uma súplica, é o desejo de Deus em nunca se separar de nós, para estar sempre com aqueles que ama. Os ramos de oliveira que benzemos no Domingo recordam a gradual passagem para a primavera, esperança de uma vida nova, sinal da ressurreição!


A vida é dom

Para Jesus, a morte não é simplesmente o desembocar inevitável do que disse e fez; mas é a sua total disponibilidade, a continuação do pão partilhado e do vinho derramado, o dom total de si mesmo. Dar a vida na cruz é a conclusão de uma existência já totalmente doada. Pregado na cruz, o Evangelho é evidente e inequívoco: os braços de Jesus, cravados e abertos num abraço que não pode ser negado, são o coração dilatado de Deus num acolhimento incondicional a todos.


“Se és Filho de Deus, desce da cruz”

Qualquer outro deus teria descido da cruz para se salvar a si mesmo. Mas o Deus de Jesus pode apenas aquilo que o amor pode! E o amor divino é criativo e louco, crava a maior prova de amor quando dá a vida pelo pelos amigos. O Amor abraça a cruz, porque nela abraça as cruzes de cada filho. Deus entra na morte porque na morte entra também cada um dos seus filhos. O Amante participa de todas as dores que os seus amados possam sofrer. Na cruz, Deus não grita belas palavras ou teorias, mas assina com a própria vida todo o Evangelho, rubrica com o seu sangue todo o seu amor. Deus “crucifica” o seu amor para que não fiquem dúvidas! Naquela “árvore da vida”, Deus “vinga-se” definitivamente da distância, da indiferença, da separação: nada o impedirá de ser o Emanuel, o “Deus connosco”, para sempre. Nem a morte nos poderá separar! A beleza de Cristo na cruz não é por ter sofrido por nós, mas por ter transformado todo aquele sofrimento num acto de amor: a cruz é um convite radical a não sofrer, mas a amar sempre, a qualquer preço, mesmo até ao preço da vida.


“Este era verdadeiramente Filho de Deus”

Que terá visto o centurião na agonia de um moribundo de modo a fazer o primeiro acto de fé cristão? Presumo que no rosto daquele agonizante, ele tenha visto o coração de Deus e pressentido a ressurreição. É de joelhos no lava-pés e em silêncio no alto do calvário que descobrimos o verdadeiro rosto de Deus. Ali aprendem-se os gestos humanos e eucarísticos que nos tornam verdadeiramente divinos. Caros amigos, diante do mistério amoroso da cruz apenas podemos ajoelhar e agradecer, porque o grão caído por terra dá muito fruto! E isso, caro amigos, é o coração do Evangelho!

VIVER A PALAVRA

Acompanharei o caminho amoroso de Jesus, procurando também ser dom.


REZAR A PALAVRA

Senhor, eu creio que és verdadeiramente o Filho de Deus!

Entras na minha vida revestido de humildade e calas os gritos da injustiça.

És pão que se entrega por amor e sangue derramado por todos, para sempre.

Caminhas livre até à morte e ensinas-me a dar-me, sem limites, até ao fim.

Questionas o abandono, a solidão, e abraças a obediência com vigor.

És silêncio, verdade, doçura e perdoas o pecador que te prega à cruz.

Senhor, eu creio que és verdadeiramente o Filho de Deus!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

V Domingo Quaresma A


Naquele tempo, as irmãs de Lázaro mandaram dizer a Jesus: «Senhor, o teu amigo está doente». Ouvindo isto, Jesus disse: «Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus, para que por ela seja glorificado o Filho do homem». Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro. Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente, ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava. Depois disse aos discípulos: «Vamos de novo para a Judeia». Ao chegar lá, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias. Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar, Marta saiu ao seu encontro, enquanto Maria ficou sentada em casa. Marta disse a Jesus: «Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá». Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará». Marta respondeu: «Eu sei que há-de ressuscitar na ressurreição do último dia». Disse-lhe Jesus: «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim nunca morrerá. Acreditas nisto?». Disse-Lhe Marta: «Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo». Jesus comoveu-Se profundamente e perturbou-Se. Depois perguntou: «Onde o pusestes?». Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor». E Jesus chorou. Diziam então os judeus: «Vede como era seu amigo». Mas alguns deles observaram: «Então Ele, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito que este homem não morresse?». Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo. Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada. Disse Jesus: «Tirai a pedra». Respondeu Marta, irmã do morto: «Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias». Disse Jesus: «Eu não te disse que, se acreditasses, verias a glória de Deus?». Tiraram então a pedra. Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse: «Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas falei assim por causa da multidão que nos cerca, para acreditarem que Tu Me enviaste». Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, sai para fora». O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Disse-lhes Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir». Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria, ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele.».(Jo 11, 3-7.17.20-27.33b-45)


Caros amigos e amigas, a voz de Jesus soa por cima do fétido odor das nossas obras mortas, mais forte que todas as pedras que nos amarfanham a existência! Jesus é a ressurreição e a vida! Ele chama-nos para a sua presença vivificante.


As lágrimas de Deus

Em Betânia, Jesus encontrava hospitalidade e serenidade, o prazer da amizade e da familiaridade. Agora, naquela casa estão presentes sinais de morte e desilusão. A dinâmica Marta permanece estática, num canto, de braços cruzados; em Maria abate-se a tragédia; os olhares e as palavras parecem vazios. Lázaro tinha-se apagado nos braços amorosos das irmãs, mas distante das mãos vivificantes do Amigo. Quando este chega, vê a dor que a dor suscita no coração desfeito de quem ama. Em Betânia, Deus aprende a fragilidade da vida, o sofrimento e o desespero. Ali o Criador chora a criatura, o Amigo chora o irmão, o Pai chora o filho. Em Betânia, as lágrimas silenciosas e mortificadas de Jesus são choro, oração e revolta contra a morte. Ali, o Amor faz-se lágrima, presença, palavra de vida. E, quando Deus chora, declara todo o seu amor: os amigos não podem morrer para sempre. O choro de Deus é um grito pela vida de quem ama.


“Sai para fora”

Deus vem propositadamente por Lázaro e por nós e, quando não nos encontra, chora. Então, chama com força o nosso nome, num grito de amor, sobre o país da morte, que passa os abismos que pareciam intransponíveis. A palavra pronunciada por Deus, que desde a aurora da criação tinha gerado do nada todas as coisas, regressa de novo fecunda, faz-se agora escutar até pelos mortos. A Palavra é vida e faz regressar à vida! É o brado divino que rouba Lázaro ao sepulcro. Aquela voz familiar e amiga reabre sarcófagos e liberta a esperança, é mais forte do que o silêncio da morte. O Verbo é ressurreição! A morte pode envolver a pessoa de ligaduras, impedi-la de ser e viver, enterrá-la no esquecimento, mas não impedirá os indestrutíveis laços de amor que nos ligam a Deus. Nem impede o grito divino repetido à exaustão: não permaneças na escuridão do fúnebre espaço do egoísmo, desata as ligaduras que amarram a tua humanidade, retira o sudário para decifrar os milagres, afasta as pedras que tapam os raios de sol para abraçares o irmão.


“Eu sou a ressurreição e a vida”

A ressurreição é possível pelas lágrimas de Deus! Porque o Senhor vive a nossa dor, porque o seu amor pelo amigo não aceita terminar nunca, porque cada um de nós é Lázaro doente e amado! O milagre do Evangelho é o próprio Jesus que devolve a vida aos braços inertes de Marta, restitui brilho ao olhar ofuscado de Maria e restaura até o corpo putrefacto de Lázaro. Sem o Amigo não há vida e, só quando ele regressa, regressam também à vida as realidades enterradas e deterioradas pelo tempo, pelo desânimo, pela morte. Mesmo se Ele se atrasa nunca faltará ao encontro, sobretudo aquele decisivo, quando gritará fora dos nossos túmulos o nosso nome. Aí o Amor realizará o milagre, não de uma vida com mais alguns dias, mas de uma vida para sempre. E isso, caros amigos, é Evangelho!


VIVER A PALAVRA

Em cada momento de dor e de morte, quero desvendar o misterioso perfume da Vida.


REZAR A PALAVRA

Senhor Jesus, eu creio que és a Ressurreição e a Vida.

Sou eu a instalar a morte dentro da minha vida, quando adormeço sem Ti...

Mas vem depressa sacudir-me este sono letal que me encerra e me decompõe!

No concentrado e fecundo amor do teu choro me regeneras: agarrarei a Vida!

Na ondulação firme da tua voz, me despertas e me chamas: saborearei a Vida!

No perfume da tua presença viva me provês: de Ti manarei a Vida!

sexta-feira, 1 de abril de 2011

IV Domingo Quaresma A


Naquele tempo, Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença. Cuspiu em terra, fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego. Depois disse-lhe: «Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado». Ele foi, lavou-se e começou a ver. Entretanto, perguntavam os vizinhos e os que o viam a mendigar: «Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?». Uns diziam: «É ele». Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele». Mas ele próprio dizia: «Sou eu». Levaram aos fariseus o que tinha sido cego. Era sábado esse dia em que Jesus fizera lodo e lhe tinha aberto os olhos. Por isso, os fariseus perguntaram ao homem como tinha recuperado a vista. Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos; depois fui lavar-me e agora vejo». Diziam alguns dos fariseus: «Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado». Outros observavam: «Como pode um pecador fazer tais milagres?». E havia desacordo entre eles. Perguntaram então novamente ao cego: «Tu que dizes d’Aquele que te deu a vista?». O homem respondeu: «É um profeta». Replicaram-lhe então eles: «Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?». E expulsaram-no. Jesus soube que o tinham expulsado e, encontrando-o, disse-lhe: «Tu acreditas no Filho do homem?». Ele respondeu-Lhe: «Quem é, Senhor, para que eu acredite n'Ele?». Disse-lhe Jesus: «Já O viste: é quem está a falar contigo». O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou: «Eu creio, Senhor». (Jo 9, 1.6-9.13-17.34-38)


Jesus numa aventura de amor aproxima-se de um cego, sussurra-lhe uma ordem e oferece-lhe a sua luz. O episódio narrado pelo Evangelho é também o reflexo da humanidade mergulhada na noite, quando não vê o aproximar-se de Deus, quando se entretém em questões sem significado e quando é incapaz de se encantar com os milagres realizados.


“Jesus encontrou um cego de nascença”

Jesus parece ser o único que vê o cego marginalizado. Se o homem olha só com os olhos para as aparências, Deus olha com o coração para ver o coração. O olhar é uma questão de direcção e de intensidade. E Deus vê misericordiosamente além da superfície. Não é o homem que procura e vê Deus; é a Luz que nos procura e se avizinha; é Deus que nos contempla amorosamente, sonhando para todos uma luz esplendorosa. E quando encontra as trevas, o Mestre inicia uma liturgia de vida e repete, no rosto dos cegos, os gestos da criação de um Deus atento a recriar o homem. O céu de Deus continua ainda hoje a amassar-se com a nossa terra, e as mãos do oleiro acariciam as nossas cinzas, semeando nelas o fulgor da sua luz.


A visão de um cego

O cego de nascença não se arrasta em lamúrias, não procura explicações para a sua desgraça, não deita culpas pecaminosas sobre alguém. Espera apenas palavras orientadoras e mãos compassivas que possam acrescentar algo aos seus olhos apagados. É um homem sem voz e sem nome, que deixa os dedos do Mestre enchê-lo de lodo e de beijos, modelando nele os olhos do homem novo. É alguém que confia de olhos fechados, que deixa a voz do Verbo acariciar-lhe a vida, e que permite à “luz da luz” rasgar-lhe a noite interior. Ainda de os olhos vazios, acende-se no seu íntimo uma esperança que o põe a caminho. Junto da piscina associará, pela primeira vez, as vozes e rumores aos rostos e imagens que nunca tinha visto. Depois procurará aquele homem, Filho de Deus, o “Senhor” com voz de primavera, capaz de gestos renovadores e criadores de mais vida.


A cegueira de tantos olhares

Quem estava antes na periferia da vida é agora o centro das atenções. Um carrossel de cegos gira à volta da sua história à procura das areias que atrasam a vida, sem tirar primeiro as próprias traves que impedem ver o milagre. Os fariseus, face à alegria de um pobre, não batem palmas nem se comovem; sabem teorias mas esquecem a vida; edificam um mundo de palavras mas não falam de esperança, nem a fazem desabrochar. Ontem como hoje, o nosso mundo procura explicações e quem errou, mas poucos sentem dor pelos olhos desabitados dos cegos, poucos se deixam encantar pelos novos olhares iluminados. Tornamo-nos burocratas das ideias e analfabetos do coração; somos defensores de doutrinas mas indiferentes à dor; somos crentes sem coração e não vemos as pessoas e os sinais que Deus realiza (Ronchi). Jesus mostra o coração de um Deus que não procura a culpa, nem busca uma justificação para a doença. Ele é a compaixão, a mão viva que toca o coração, o arco-íris que conduz ao um mundo novo. Contudo, enquanto o Senhor ungia e curava o cego, abria também secretamente os olhos de outros cegos e limpava-lhes a cegueira do seu coração (S. Efrém). No fim, o cego torna-se discípulo, de olhos enamorados e coração aberto. Agora, diante de todos, é ele que dialoga, contagia e testemunha os prodígios que Deus realiza nele. Isso, caros amigos, é Evangelho!


VIVER A PALAVRA

Em cada um dos meus olhares, quero colocar a lente da fé.


REZAR A PALAVRA

Senhor...

Sou eu... aquele que encontras cego, no caminho poeirento e escuro.

Sou eu... aquele que carece de purificação na piscina do Teu Espírito.

Sou eu... aquele que mendigo a felicidade e a liberdade no amor.

Sou eu... aquele que curas com a terra fecunda e a água da vida.

Sou eu... aquele que acredita, vê e escuta: Sou Eu quem está a falar contigo!

quinta-feira, 24 de março de 2011

III Domingo Quaresma A

Naquele tempo, chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José, onde estava o poço de Jacob. Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço. Era por volta do meio-dia. Veio uma mulher da Samaria para tirar água. Disse-lhe Jesus: «Dá-Me de beber». Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. Respondeu-Lhe a samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana?». De facto, os judeus não se dão com os samaritanos. Disse-lhe Jesus: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva». Respondeu-Lhe a mulher: «Senhor, Tu nem sequer tens um balde e o poço é fundo: donde Te vem a água viva? Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu, com os seus filhos e os seus rebanhos?». Disse-lhe Jesus: «Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede. Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente que jorra para a vida eterna». «Senhor, – suplicou a mulher – dá-me dessa água, para que eu não sinta mais sede e não tenha de vir aqui buscá-la. Vejo que és profeta. Os nossos pais adoraram neste monte e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar». Disse-lhe Jesus: «Mulher, acredita em Mim: Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos Judeus. Mas vai chegar a hora – e já chegou – em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são esses os adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito, e os seus adoradores devem adorá-l’O em espírito e verdade». Disse-Lhe a mulher: «Eu sei que há-de vir o Messias, isto é, Aquele que chamam Cristo. Quando vier há-de anunciar-nos todas as coisas». Respondeu-lhe Jesus: «Sou Eu, que estou a falar contigo». Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus, por causa da palavra da mulher. Quando os samaritanos vieram ao encontro de Jesus, pediram-Lhe que ficasse com eles. E ficou lá dois dias. Ao ouvi-l’O, muitos acreditaram e diziam à mulher: «Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos. Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo». Jo 4, 5-15.19b-26.39a.40-42

Caros amigos e amigas, a história da samaritana é a nossa história, feita de sedes, de encontros e de amores. É também a metáfora do nosso itinerário de fé. Jesus, com delicadeza e pedagogia, vem ao nosso encontro, chama-nos, fala-nos de fontes em plenitude e desperta em nós sonhos e mistérios esquecidos.

“Dá-me de beber”!
A samaritana, mulher de vários amores, vivia ainda no deserto do amor. Mas, no poço de Sicar, ela encontra o Esposo que procura a esposa perdida, vê o noivo que busca a humanidade sedenta, para a saciar.
É um Deus inesperado aquele que se apresenta junto ao poço da nossa vida, na pele de um viajante cansado. É um Deus sem pudor que vem à procura, toma a iniciativa e interpela. É um Deus com sede de nós, da nossa fé, da nossa atenção, do árido cântaro do nosso coração. Um Deus que se faz pobre e pedinte para saciar a nossa pobreza e educar a nossa sede.

“Se conhecesses o dom de Deus”!
Jesus cruza o olhar da mulher com um sorriso que não condena, não humilha, apenas ama. Fá-la nascer de novo e ela abandona o cântaro como se fosse um trapo velho. Jesus não nega à samaritana as pequenas alegrias do caminho, não desencanta a vida, não lhe rouba o sonho e a poesia. Apenas mostra que essas não chegam para saciar uma sede maior, que essas não são suficientes porque o coração é maior do que muitos oceanos. Jesus faz nascer nela a sede de céu, a fome de eternidade; fá-la passar do pequeno cântaro para a fonte da vida. Ele pede-lhe água e nela acende o fogo do amor de Deus. Ali no coração, verdadeira cidade santa, onde se adora em “espírito e verdade”. Nunca ninguém lhe tinha dito que ela era um templo divino de amor. O mundo tinha-se dividido entre quem a usava e quem a condenava. Mas Jesus é aquele que não fecha ninguém nos seus falhanços, mesmo que mais numerosos do que os maridos da samaritana, mas é fonte de natividades e de futuro, para que também nós cheguemos ao poço como mendigos de água, mas andemos ao encontro dos outros como pedintes do céu.

Ser fonte de água viva
A mulher de Samaria vai com um cântaro ao poço, mas regressa a casa e à cidade como uma nascente, como discípula, como epifania do rosto de Deus. Também nós temos de esquecer os cântaros velhos, as vidas que contém tão pouco, tão opacas e vazias, para correr a contar a todos acerca de um Senhor que faz levantar o olhar e faz brotar em nós, numa espiral de vida, uma primavera de esperança.
O dom de Deus não é ter um cântaro maior, nem é um poço mais profundo, mas é uma “água viva que se torna fonte para a vida eterna”. A fonte é água que se dá para a sede dos outros. A fonte é fecundidade, vida, abundância. O projecto de Deus é que cada um de nós seja fonte, para as sedes e ardores dos outros, com a delicadeza de um enamoramento divino. E isso, caros amigos, é Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Em cada sede, quero saborear o dom, a novidade do Espírito Santo em mim.

REZAR A PALAVRA
Senhor, fonte que responde a todas as minhas sedes: dá-me de beber!
É a tua água viva que quero que flua na composição orgânica da minha vida. Abre-me ao manancial de ressurreição que me brota desde a fonte baptismal.
Vem, torrente do Amor, da Verdade, da Alegria... da Salvação,
vem lavar-me da velhice do egoísmo e permitir-me a juventude de amar,
de tornar-me fonte também; vem seduzir-me a adoração que o Pai deseja.