quinta-feira, 8 de setembro de 2011

XXIV DOMINGO COMUM A

Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: «Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?». Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida. Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: ‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’. Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: ‘Paga o que me deves’. Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo:
‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’. Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia. Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido. Então, o senhor mandou-o chamar e disse: ‘Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque mo pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’. E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração».

Caros amigos e amigas, através desta parábola contabilística, Jesus revela a grandeza do perdão de Deus, a álgebra que nós temos de estudar para exercer o perdão para com os nossos irmãos.

Os cálculos do perdão
Pedro faz contas de cabeça e até parece apresentar a Jesus um cálculo arrojado, quanto ao perdão. Mas Jesus puxa os cálculos até à medida incomensurável de Deus. Esta parábola revela-nos qual a nossa situação de dívida em relação a Deus. O impacto é tanto maior se considerarmos a abissal desproporção entre as duas dívidas mencionadas. Como o primeiro servo da parábola, nós temos perante Deus uma conta impossível de saldar. Mas quantas vezes, como o servo perdoado, somos uns credores impiedosos? Tendemos a organizar um cadastro e debitar ao outro a mínima falha. Ainda que dissimulada, a vingança é prezada. Achamos que o outro deve sentir que nos ofendeu. Mas fará sentido ocupar o tempo da nossa alegria a desfrutar amuos e a coleccionar mágoas?! Incrivelmente no espaço precioso da nossa memória vogam velhas ninharias que puxamos com facilidade, para atirar à cara do irmão! Perdoar pode significar morrer, mas estende a vida e a vida do outro vivifica-nos…

Perdoou-lhe a dívida
O perdão está nas delícias de Deus. Perdoar é a sua especialidade. Só Aquele que nos criou sabe bem como recriar-nos. O perdão é recriação, dá a liberdade, faz viver. Pensar levianamente no perdão de Deus é também abordar a questão do pecado ou da justiça com superficialidade. Perde-se o sentido do pecado quando se perde o sentido do amor. Será que relativizamos os mandamentos, as regras de boa conduta, os deveres… por achar que sempre podemos obter de Deus uma absolvição… arbitrária? Não, amigos e amigas, o perdão não se pode confundir com impunidade. E não é preciso que Deus nos castigue: as consequências virão, mais cedo ou mais tarde, como fruto amargo do amargo que tivermos semeado. Não é Deus que perde quando pecamos, quem perde somos sempre nós e Ele não suporta que nos percamos, por isso a sua misericórdia está sempre de portas abertas.

Assim procederá convosco meu Pai celeste…
Não se convence alguém a perdoar com uma palmada nas costas e uma frase do género: “Deixa lá!” Mas há um motivo poderosíssimo que nos pode conduzir a todos os perdões: é o perdão de Deus. No alto da Cruz Jesus brada: “Pai, perdoa-lhes” e não diz: “Pai, Eu lhes perdoo!” Ele entrega o perdão ao Pai. O perdão que concedemos não pode depender de qualquer burocracia, tornar-se fonte de humilhação para o irmão, nem é uma esmola dada pelo nosso conceito de superioridade. Antes de ser uma dívida para connosco, a ofensa do outro é uma dívida para com Deus e é a Ele que pertence perdoar. A nós compete-nos ser intérpretes do perdão de que nós próprios fruímos, tal como deveria ter feito o servo da parábola, amnistiado pelo seu senhor. Mas se fechamos o perdão ao irmão, como podemos abrir-nos ao perdão de Deus?
Caros amigos e amigas, com um amor tão imenso a amar-nos nós podemos e temos de perdoar… sempre e totalmente. Com os números, mesmo escassos e titubeantes, dos nossos perdões Jesus pode e quer fazer de cada um de nós o resultado exorbitante de um saldo positivo de vida… e isso é Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Vou olhar com amor, abraçar sem distinção e perdoar sem medida.

REZAR A PALAVRA
Pai Nosso, que estás nos Céus, o prazo infinito do teu amor dá-me confiança:
perdoa a minha débil consciência de que preciso do teu perdão;
perdoa a quem me tem ofendido, como quero que a mim me perdoes;
perdoa o perdão insuficiente e mesquinho que concedo a quem me ofendeu;
Pai Nosso, que estás nos Céus, perdoa a minha ofensa
assim como perdoo a quem me tem ofendido.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

XXIII DOMINGO COMUM A

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganhado o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano. Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu. Digo-vos ainda: Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles». (Mt 18, 15-20)

Caros amigos e amigas, todos os dias as nossas relações com os outros são postas à prova. No Evangelho de hoje Jesus revela-nos o caminho correcto desde a ofensa até ao irmão. O acento está no irmão e não na ofensa.

A indiferença, a ofensa ou o irmão?
É séria a tentação de nos movimentarmos como fragmentos individuais que não se tocam, ou encerrarmo-nos numa campânula de indiferença, a pretexto de uma tolerância inútil. É tão cómodo não ter nada a ver com os outros! Não é bom que apenas nos demos conta da sua existência quando nos incomodam e nos ferem, não é bom deixar que o incómodo e a ferida lhe tapem o rosto e insinuem apenas a sua fealdade. Com muita frequência temos na ponta da língua a displicente réplica de Caim: “Porventura sou guarda do meu irmão?” Mas esta pergunta está comprometida com a incapacidade de integrarmos o outro na nossa vida e, não raro, pretende disfarçar o nosso próprio contributo para a sua perda. Deus, porém, insiste em perguntar: Onde está o teu irmão? E coloca-se, Ele mesmo, na pele deste irmão de todos os tempos, que se faz pecado, que é acusado e lançado fora da cidade e ali derrama um sangue que há-de gritar a reconciliação. Jesus convida-nos a sentir o outro como parte de nós mesmos, de modo que a sua perda se possa comparar à dor de uma amputação.

Ir até ao fim para ganhar o irmão
Temos aqui um verdadeiro manual de correcção fraterna. Apreciemos o gradativo processo em que Jesus nos revela a forma de agir de Deus para nos ganhar. Começa por se abeirar de nós, pessoalmente, falando-nos ao coração através da sua Palavra e da oração. Ele envia o seu próprio Filho numa carne semelhante à nossa para que melhor O entendamos e investe em todas as formas de persuasão até chegar à eloquência da Cruz. Se, ainda assim, O não ouvimos, Ele tenta a nossa cura no aconchego comunitário. Deus simplesmente nunca desiste de nós e esgota todas as possibilidades de redenção. Quando nos considera como pagãos ou publicanos não quer dizer que nos lance fora, mas que respeita esse espaço sagrado que se chama liberdade individual.
É preciso entender que nós somos solicitude do Senhor para com os nossos irmãos e que ser sentinela não é estar à espera que o irmão peque para premir o gatilho de uma acusação gratuita e arrogante. A denúncia faz parte da cura, mas não vale entrarmos pela porta fácil da coação, da manipulação ou de qualquer tipo de terrorismo moralista. O pecado do outro não pode ser pretexto para nos arvorarmos em superioridade e presunção. O Senhor aponta-nos a delicadeza própria d’Ele, uma diligência que se antecipa, mas que não humilha. Ensina-nos a vencer a indiferença com a força do diálogo e da humildade. O irmão não se sequestra, não se torce, não se verga, mas ganha-se, até ao ponto de ele se nos dar voluntariamente. O irmão é um troféu pelo qual vale a pena lutar!

A comunidade é o Céu
Ainda que suportar o peso da diferença do outro seja fonte de dor e contradição, já sabíamos que “a união faz a força” e tínhamos esplêndidos tratados sobre associativismo, mas Jesus faz-nos uma revelação impressionante: o Seu nome transfigura a comunidade e esta tem o poder de agarrar o céu para dentro de si mesma, liga e desliga no céu. A comunidade com Jesus não é um espaço de consumo egoísta, mas um manancial de partilha onde se sente o irmão como parte de nós e onde podemos degustar a presença do próprio Deus e o dom total de Si mesmo. É o ambiente privilegiado onde Deus nos educa, nos cura e nos mima. Ela mesma é o Céu.
Jesus sente-se bem em família! Convidemo-l’O para a nossa. Sintamos n’Ele a alegria exigente de viver em Igreja e façamos das nossas paróquias e das nossas famílias comunidades que têm n’Ele o segredo da sua solidez! Porque a comunidade, amigos e amigas, é o mais belo livro onde Deus escreve a força do Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Nos gestos do meu dia-a-dia serei ponte que liga o Homem a Deus.

REZAR A PALAVRA
Senhor, segredas o perdão na história que cresce em mim...
Senhor, o teu abraço de irmão, lança-me para o Pai...
porque me une, com a cor e a força do Espirito,
à verdadeira fé, à firme esperança, ao perfeito amor.
Senhor, quero ser teu...só teu...saborerar a união de vontades
e seguir as pegadas do teu sim, de mãos dadas com o irmão.
Reunidos em teu nome, contemplamos-te no centro...
És o motivo, o início e a meta dos nossos laços! Tu estás no meio de nós!!!

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

XXII DOMINGO COMUM A

Naquele tempo, Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. Pedro, tomando-O à parte, começou a contestá-l’O, dizendo: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há-de acontecer!». Jesus voltou-Se para Pedro e disse-lhe: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens». Jesus disse então aos seus discípulos: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Que poderá dar o homem em troca da sua vida? O Filho do homem há-de vir na glória de seu Pai, com os seus Anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras». (mT 16, 21-27)
Caros amigos e amigas, eis-nos perante uma passagem de contrastes, de escolhas e de consequências. Jesus parece colocar tudo às avessas. Mas não seremos nós que teimamos em manter uma perspectiva da vida… às avessas? Este Evangelho faz-nos rever o significado de alguns vocábulos recorrentes no nosso dia a dia.

Jesus tinha de ir a Jerusalém
O verbo ter dá um tom de imperativo, mas Jesus não vai forçado a Jerusalém, vai seduzido… pela vontade do Pai, pelo Pai, por cada um de nós. Deus deixou-se seduzir por nós e isso traz-lhe consequências.
Mas o que terá Jerusalém de tão especial? O sofrimento, o escárnio, a flagelação, a crucifixão, a morte? Claro que tais perspectivas confundem a Pedro. A nós também! Ante tais declarações, Jesus poderia ser tomado por um masoquista ou um suicida! Não, amigos e amigas, não é isto que atrai Jesus a Jerusalém. Isto é apenas a forma, e Jesus tinha de falar assim aos discípulos para os preparar. Jerusalém é meta de fidelidade. O que Jesus vê aí é a vida preciosa de cada um de nós, disputada pelo pecado. Ele vai a Jerusalém para encaminhar o fluxo perverso das nossas liberdades para a libertação, vai desencarcerar do seu coração uma torrente de vida para dar de beber à humanidade, vai fazer brilhar, no zénite, o acto supremo de amor de um Deus que estanca o mal com o perdão, vai fazer florir a Cruz, qualquer cruz de sofrimento sem sentido, para dela brotar um fruto de mais vida.

Um Pedro cheio de “boas” intenções
Depois de se ter saído tão bem na confissão de fé, eis que o aluno Pedro regressa às más notas! Ali ele tinha proferido uma revelação do Pai, aqui estraga tudo quando desfere um pensamento humano. Ele representa as nossas espontaneidades egoístas, na busca do que pensamos ser o bem. Ele manifesta por Jesus um afecto sincero, é certo, que quer o bem de Jesus, mas um bem imediato, temporário, não um bem totalizante, um bem que perdura para lá das contingências. Pedro nem pensa no “para lá de”, importa-lhe um agora desafogado de contrariedades. Ele está ainda acorrentado a essa tacanhez humana de ver e gerir a vida, poder libertar-se dos sofrimentos infligindo sofrimentos a outros, poder ganhar a paz a preço de guerra, poder passar por cima de muitos ou poucos pormenores de infidelidade para garantir um sucesso imediato. Porque pensar na perspectiva de Deus, onde nos pode levar? Deixar-nos seduzir por Deus leva-nos, seguramente, muito longe…

Se alguém quiser… perder para ganhar
Vamos preferindo ficar em “serviços mínimos” e esbater o fragor desta questão: o que queremos da vida e que vida queremos? Há também a sedução do velho lema: Carpe diem! A vida é breve, aproveitemos! Aproveitar o quê?! A energia física decai, o corpo envelhece, as faculdades biológicas têm os dias contados. Preferimos abonar ao efémero um punhado de anos que se volatilizam, ou fazer do tempo uma sementeira para o eterno?
Jesus deixa a nossa liberdade intacta: “se alguém quiser…”, mas desafia-nos a fazer da vida um investimento em mais vida, a abraçar a metáfora do grão de trigo lançado à terra. Não é a uma resignação “aguentada”, nem a uma avarenta privação da alegria de viver para entesourar “méritos”; Jesus convida a deixar-nos seduzir por Deus e a apostar na medida alta do amor. A cruz de Jesus é um sinal + da vida, porque sinal do supremo amor. Seguir Jesus é aceitar, por sua causa, descentrar-se de si, esbanjar-se nos labirintos da fome da humanidade, semear-se, de vida inteira, nos desafios de cada hora, e acreditar num fruto de ressurreição! E isto, amigos e amigas, é aproveitar ao máximo o que a vida pode dar, porque a Cruz de Jesus é o Evangelho da Vida!

VIVER A PALAVRA
Quero fazer da vida um permanente encontro com a vontade do Pai.

REZAR A PALAVRA
Senhor há um mistério que me chama, lá para os lados de Jerusalém...
é a tua vida, nascente de salvação, a transbordar do altar da Cruz!
Correrei, pressurosamente, para a estrada da Verdade que me fará livre.
Quero embelezar o meu rosto com a perene juventude da esperança,
e peço ao coração que rompa os laços do egoísmo e se te ofereça inteiramente.
Senhor, Tu seduzes-me. Quero deixar-me seduzir... e seguir-te para Jerusalém!
Se estiver contigo que importa perder tudo, que importa morrer?
Tu és tudo. Tu és vida, ressuscitada. Contigo nada me faltará.