quinta-feira, 17 de maio de 2012

Ascensão B


Naquele tempo, Jesus apareceu aos Onze e disse-lhes: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado. Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados». E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus. Eles partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.

Caros amigos e amigas, no regresso à casa do Pai, Jesus envia os discípulos a todo o mundo, insuflados pelo Espírito. A festa da Ascensão é, então, um convite a sermos profetas da esperança, testemunhas do amor, enamorados do Evangelho.

“Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho”
Os onze discípulos, assolados pelas dúvidas, são enviados a todo o mundo. A confiança do Mestre não dá importância às incertezas daquele punhado de homens e acredita, ainda hoje, em cada um de nós. Ele bem sabe que a missão não se baseia nas forças ou nas dúvidas dos discípulos, porque no coração da missão está o coração do Pai. O milagre do Evangelho é, então, prodigamente semeado nas sílabas da voz humana e nas frágeis mãos de cada pessoa. Jesus não deseja discípulos alienados com um estéril fixar dos céus, mas convida a voltar o olhar para o quotidiano, sementeira de milagres.
Deus arrisca, aposta, aventura-se! Ele confia a beleza da criação à nossa vida de barro, entrega a sua obra de amor à fragilidade do coração humano.

“O Senhor Jesus foi elevado ao Céu”
Jesus elevando-se da nossa terra – olhada, visitada e semeada ternamente por Deus – inaugura uma fraternidade universal, como uma seara verdejante a ondular ao vento suavíssimo do Espírito. O Mestre ousa sonhar em grande: a missão confiada tem a pretensão de totalidade, de eternidade, com sabor de infinito. A fé torna-se sempre um sair, um andar, um abrir-se, um pôr-se a caminho do mundo. Deus é para todos, é de todos. Ninguém pode sequestrar a salvação. Mergulhar tudo e todos em Deus; baptizar na beleza e novidade que se encontrou e conheceu; inundar a humanidade naquele oceano de amor, faz brotar a vida!
A partir da Ascensão, o discípulo torna-se uma pessoa de fronteira, é levado pelo Ressuscitado a superar o horizonte do umbigo egoísta. O outro torna-se um universo imenso para caminhar. O outro é o paraíso, a terra prometida. O outro, o irmão, é o lugar onde Deus se pode encontrar.

“O Senhor cooperava com eles”
No The end do Evangelho descobrimos que a promessa inicial de Deus – ser o Emanuel, o Deus connosco – se mantém. Ele não se satisfaz com visitas fortuitas, mas promete cooperar connosco todos os dias, dia após dia, de luz e de trevas, de presença e de silêncio. Jesus não assegura coisas, riquezas, comodismos; afiança antes uma presença, uma relação, uma companhia: eu estou sempre convosco! Nunca mais estaremos sós. Nunca mais um Deus distante, separado, esquecido no alto dos céus, mas amassado com a humanidade. Céu e terra reproduzidos, multiplicados e engendrados juntos.
Desta união o homem sairá recoberto de céu, porque o Filho se revestiu da humanidade. Em Jesus, as realidades celestes beijaram a terra e as realidades terrestres foram elevadas à intimidade de Deus. Maravilhosa missão que nos é confiada: criar laços com a eternidade, enamorar-se do céu, ser escada do paraíso. A nossa missão é simples: salvar um pedaço do céu na nossa vida e fazer nascer uma semente de éden no coração da humanidade.
Ainda hoje, Deus mete os seus passos nas pegadas do homem. Basta subir e descer a humanidade de Cristo para encontrar a bênção de Deus. E isso, caros amigos e amigas, é Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Vou partir em missão, lançado pelas mãos do Pai que me envia e me acompanha.

REZAR A PALAVRA
Senhor, perdoa-me as vezes em que lido contigo como com a imagem de um ausente!
Tu não me deixas entregue à sorte, enquanto te sentas na poltrona da eternidade;
Tu não me marcas um trabalho de digressão pelo mundo só para me entreter.
Senhor se não tivesses ficado aqui, na minha humanidade, nada me falaria de Ti;
Se não tivesses levado contigo a minha humanidade, nunca poderia falar de Ti.
Mas a Tua Palavra visita a minha escuta e a Tua Presença encontra a minha solidão...
Toma-me, envia-me, lança-me, acompanha-me, sê Tu em mim o milagre... acolhe-nos...

quinta-feira, 10 de maio de 2012

VI Domingo Páscoa B


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai. Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça. E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros». (Jo 15, 9-17)

Caros amigos e amigas, no Evangelho deste Domingo ecoa apenas uma única palavra repetida incansavelmente: amor, declinado em tantas formas! Cada frase deste Evangelho é um mundo que merece ser contemplado, meditado, saboreado. Cada expressão abre um horizonte de mistério, sublinhando que ali está a fonte e o essencial do cristianismo.

“Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei”
Hoje, o amor é um conceito algo enigmático, abusado e inflacionado. O amor é até uma realidade pouco poética: constata-se que é difícil amar! Todos conhecemos tantos contos de fadas que acabam mal…
Há uma teoria que afirma que a palavra amor é composta do “a” privativo (não) com a palavra “morte” (mors, mortis): o amor é a não-morte. Então, o amor é a vida, é aquilo que não morre, é o que permanece para sempre. O amor é aquilo que salva: só o amor nos faz viver e só por amor se pode viver.
Jesus confessa a fonte do seu amor: o Pai! Não se sente diminuído ao dizer que é fruto de um amor maior. Nós pelo contrário, cegos pela sede de aparecermos originais e de não dependermos de ninguém, esquecemos que a nossa felicidade depende sempre do amor de um outro maior do que nós.
O amor é sempre fruto de um enamoramento. O “amor é divina folia” (Platão). E esta é a essência do cristianismo: acolher o amor apaixonado de Deus! Diante de Deus nada temos a temer ou a esconder, mas devemos trazer aquela pitada de folia, de excesso, de desmedida, um pouco daquela irracionalidade que é própria do coração. Ocorre sermos pedintes do amor, mendigando a seiva da vida, deixando-se alcançar por aquele Amor que arrasta e repara as ruínas da existência, para frutificar.

“Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei”
É este pequeno como que me perturba e me encosta à parede! Sim, mas é também este amar como Ele nos ama que me encanta e seduz, como fogo que queima, inquieta, aquece, ilumina, desacomoda, preenche, devora, orienta… Só o amor de Jesus é a medida de um amor sem medidas! Este amor é fonte e dom, maravilha de um contágio excessivo, que antecipa e provoca o nosso amor! Aquele “como” indica a qualidade do verdadeiro amor: desproporcional, gratuito e infinito.
O Deus invisível tornou-se visível nos gestos de amor de Jesus. O nosso amor é sempre a declinação, a tradução daquilo que Deus é: simples gota dum oceano, um instante da eternidade, um pedaço do Amor.
Amar os outros requer cumplicidade. Não se ama a humanidade desconhecida, mas os próximos mais próximos, a começar pela família, amigos, colegas… “Amar” árvores e cães é até muito fácil…

“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos”
No Evangelho “amar” está traduzido tantas vezes com o verbo “dar”. Não se trata de uma emoção ou sentimento, mas um dar ao alcance das mãos, de pão, de água, de vestes, de tempo dado, de portas atravessadas, de pó das estradas… “porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes (Mt 25, 34 -40).
Amar não é só a vaga paixoneta adolescente, com perfume a violetas e juras eternas. É principalmente a vida real e concreta, a dança do cansaço e da paixão, o beijo da fidelidade e da dádiva esquecida. Pois, como diz o poeta, “se o nosso coração não arder de amor, o mundo morrerá de frio”. Então, caros amigos e amigas, experimentai o amor! Arriscai a amizade! E incendiai o vosso mundo com o ardor do Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Quero acolher a graça do convite do Senhor e permanecer no mandamento da comunhão.


REZAR A PALAVRA
Senhor! Propões-me um caminho de comunhão, um crescimento contínuo
na intimidade contigo. Desejo abraçar-me a Ti, sem que nada nos separe
e permanecer nesse segredo que me constrói e me insufla de alegria completa.
Senhor! Propões-me uma estrada de entrega, onde a amizade é a bandeira
do serviço incondicional. Desejo abraçar-e a Ti, sem que nada nos separe
e permanecer neste segredo que me fascina, permanecer no Teu amor.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

V Domingo Páscoa B

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor. Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê ainda mais fruto. Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos anunciei. Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira, vós sois os ramos. Se alguém permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não permanece em Mim, será lançado fora, como o ramo, e secará. Esses ramos, apanham-nos, lançam-nos ao fogo e eles ardem. Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido. A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis meus discípulos». (Jo 15, 1-8)

Caros amigos e amigas, de modo apaixonado, Jesus usa palavras simples, claras, iluminantes, e serve-se de exemplos quotidianos para nos revelar a imensa beleza da vida divina que parte do Pai, passa pelo coração do Filho e chega até nós para dar fruto, como a seiva na videira.

“Eu sou a videira, vós sois os ramos”
Dos trabalhos no campo, é na vinha que o lavrador investe mais amor e poesia, paciência e inteligência, paixão e preocupação. Hoje, Jesus diz-nos que também nós somos vinha do Senhor: Ele é a videira e nós somos os ramos prontos a dar o vinho da sua alegria! Todos existimos pelo mesmo amor que irriga a todos. Maravilhosa vida interior que nos coloca entre Deus e os outros, nesta relação e circulação íntima. E admirável paciência divina neste encadeamento de esperança e de frutos. Misteriosamente, desde as raízes do mundo, através do tronco dos séculos, Deus chega a todos os ramos, como potência e energia, como milagre que faz desabrochar o amor, qual néctar delicioso e perfumado que inebria a existência. E se nos desligarmos da videira sabemos que morreremos, por deixarmos de receber e de dar amor. Ser ramo é ser elo e mistério de comunhão.


“Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós”
Porque desafia o tempo, as incertezas e as agruras da vida, o amor não é uma experiência de um momento ou é algo intermitente, descontínuo, esporádico, mas é relação paciente que se faz história. O que permanece à superfície seca e morre, porque não saboreia a embriaguez do canto ou a intensidade do silêncio. Mesmo se a vida é feita de coisas externas e supérfluas, a felicidade reside na vitalidade interna, na fecundidade, ali onde nascem e correm os sorrisos e as lágrimas, a dor e o amor. Permanecer é então ter tempo, saborear, demorar, habitar, aprofundar raízes. Não ao lado, nem perto, mas dentro. Permanecer em é ser enxertado bem no meio, tal como profunda, íntima e vital é a comunhão do ramo na videira. E Deus permanece em nós, não como uma voz que vem de fora, mas como fonte de vida. Deus vive dentro do coração humano: é o seu sangue, a sua alma. Permanecer em (em Cristo, no seu amor, na sua palavra) é basilar para permanecer com (os irmãos numa vida comum). 


“A glória de meu Pai é que deis muito fruto” 
A glória de Deus reside nos pequenos ramos, capazes de uma riqueza de cachos amadurecidos pelo sol e de bagos de mel. A sua glória é dar muito fruto como se a nossa única vocação fosse a fecundidade. Não interessam a Deus os números dos defeitos ou dos pecados, mas sim os cestos cheios de fruta, os cabazes de alegria e de brilho, os açafates de pão partilhado e de lágrimas enxugadas, os cestos de palavras e de gestos que alimentam de doce sabor a vida! Deus gloria-se na fecundidade de frutos novos e de gestos de esperança que antes não existiam, enaltece-se na criatividade de encontros e de sorrisos que podam solidões e desânimos, glorifica-se na entrega de si mesmo que sacia anseios e fomes. O sonho de Deus, bem como a nossa felicidade, não é a poda ou o desbaste, mas é o fruto abundante e multiplicado, a dilatação de mais vida, a participação na seiva vital divina, deixando circular nas nossas veias a linfa da vida de Cristo. Dar fruto é sentir, no nosso coração, o pulsar do amor de Deus, até podermos dizer: “já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (S. Paulo). Assim, caros amigos e amigas, se vive o Evangelho.

VIVER A PALAVRA 
Vou encontrar estratégias para permanecer unido a Cristo.

REZAR A PALAVRA
Senhor, que importa dizer que te pertenço e que venero as letras do Teu Nome?
Que importa adornar-me de palavras e incensar uma ideia da Tua Pessoa distante?
Que importa permanecer em certezas (minhas) e podar pecados (dos outros)?
Importa que a Tua vida me corra nas veias, que o Teu coração seja a minha nascente!
Importa que a agricultura do amor se faça e que a Tua Palavra circule nos meus gestos…
Importa que floresça da Tua fecunda alegria e os frutos que produza tragam a tua marca!
Importa que viva de Ti, em Ti e por Ti! Importa que ame, e que permaneça no Amor!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

IV Domingo Páscoa B

Naquele tempo, disse Jesus: «Eu sou o Bom Pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas. O mercenário, como não é pastor, nem são suas as ovelhas, logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário não se preocupa com as ovelhas. Eu sou o Bom Pastor: conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-Me, do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; Eu dou a vida pelas minhas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil e preciso de as reunir; elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só Pastor. Por isso o Pai Me ama: porque dou a minha vida, para poder retomá-la. Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente. Tenho o poder de a dar e de a retomar: foi este o mandamento que recebi de meu Pai». (Jo 10, 11-18)

Caros amigos e amigas, o Evangelho hoje apresenta-nos o “Bom e Belo Pastor”. A beleza do pastor não é a das estrelas de cinema, nem Ele é bom por ser mais doce do que os outros, mas simplesmente porque a coisa mais bela e boa da vida é o amor.

 “Eu sou o Bom Pastor” 
Talvez Jesus se tenha recordado das palavras de Deus pronunciadas pela boca do profeta Ezequiel: “Eu cuidarei das minhas ovelhas, para as tirar de todos os sítios em que se desgarraram num dia de nevoeiro e de trevas. Eu apascentarei o meu rebanho, Eu o farei repousar. Hei-de procurar a ovelha que anda perdida e reconduzir a que anda tresmalhada. Tratarei a que estiver ferida, darei vigor à que andar enfraquecida e velarei pela gorda e vigorosa” (34, 11-16). Como pastor Jesus não vai à retaguarda lamentando-se da lentidão dos nossos passos ou dos saltos fora da estrada, mas caminha à frente, abrindo caminhos inesperados e inventado percursos de esperança. Precede-nos atraído mais pelo nosso futuro do que pelas quedas do passado. É o seu andar que seduz e encanta, convidando-nos a sair dos velhos recintos, dos rebanhos anónimos, dos desvios falhados, para ir ao encontro dos outros.

 “Conheço as minhas ovelhas e elas conhecem-Me” 
São tantas e infinitas as vozes que enchem a nossa vida: conselhos, pareceres, comentários, boatos… que nos afogam no silêncio anónimo. Faltam vozes amigas e familiares que falam ao coração. De facto, os ouvidos ouvem, mas é o coração que escuta. Só o coração reconhece a voz do amado, só o coração ardente reconhece o Senhor ao partir do pão, só o coração de amor responde: “eis-me aqui”. Quando o bom Pastor chama fá-lo num modo eternamente apaixonado. Ele conhece nossa vida; recorda a nossa beleza mesmo quando não nos lembramos dela; sabe quais são as nossas quedas para, se necessário, levar-nos ao colo. O Pastor chama pelo simples nome, sem evocar função, autoridade ou atributo, abraçando simplesmente a nossa humanidade de filhos. Abraça-nos com a sua voz, fala sem atalhos ao coração, convida-nos a sair de tudo aquilo que rouba, saqueia ou é estranho à vida.

 “Dou a minha vida” 
Este é o segredo de Jesus, o tesouro escondido e o mistério revelado: Deus vem para dar vida! Dar a sua vida! Não apenas o indispensável, mas aquela vida exuberante, excessiva, bela, magnífica, exagero de vida. Deus dá sempre em demasia: cem vezes mais em irmãos; sobras imensas após saciar a multidão; água insípida transformada no melhor vinho de Canaã; ossos inanimados revigorados no paralítico; pedra do túmulo rolada em Lázaro; perfume esbanjado no perdão dos pecados, até à morte do Filho na cruz para salvar o escravo. O Amor é sempre excessivo, abundante, exagerado; de contrário não seria amor! Ser cristão é aprender de Jesus que a vida é dom; é descobrir que o sentido da vida é dar com abundância; é compreender que o segredo da felicidade depende do amor, da entrega e da relação com o pequeno rebanho confiado ao nosso coração. E Deus, com infinito amor, dá a eternidade ao que de mais belo e bom trouxermos no coração. E isso, caros amigos, é Evangelho!

 VIVER A PALAVRA 
Esforço-me por reconhecer e escutar a voz do Bom Pastor, no meio de tantos confusos ruídos.

 REZAR A PALAVRA 
Senhor, Bom Pastor, olha o meu passo perdido, neste campo sedento.
Senhor, Bom Pastor, escuta o silêncio do meu vazio, nesta busca de verdade.
Senhor, Bom Pastor, toca o coração duvidoso, com a luz do Teu Espírito.
Senhor, Bom Pastor, abraça cada lágrima de medo, com a certeza do amor.
Preciso de Ti, guia seguro, Tu me conheces...leva-me à fonte...
Conduz-me a verdes prados, onde, contigo, darei a Vida.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

III Domingo Páscoa B

Naquele tempo, os discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão. Enquanto diziam isto, Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Espantados e cheios de medo, julgavam ver um espírito. Disse-lhes Jesus: «Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como eles, na sua alegria e admiração, não queriam ainda acreditar, perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa para comer?». Deram-Lhe uma posta de peixe assado, que Ele tomou e começou a comer diante deles. Depois disse-lhes: «Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava convosco: ‘Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’». Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas de todas estas coisas». (Lc 14, 35-48)


Caros amigos e caras amigas, o Evangelho de Emaús narra a peregrinação da nossa vida que oscila, tantas vezes, entre uma vida desiludida e um coração encantado. Caminhar com amigos e desconhecidos, partilhar as esperanças e as tristezas, descobrir o sentido profundo dos acontecimentos, dividir o pão da vida e deixar Deus acender-nos o coração é o grande tesouro de Emaús.

Do desespero até à fé
Os dois discípulos de Emaús caminham amargurados e decepcionados. Abandonam Jerusalém e ali deixam os sonhos e as esperanças Com o coração ainda acampado no calvário são incapazes de acolher a alegria transbordante da Páscoa. Enquanto caminham um desconhecido junta-se a eles. Quando tudo parece falir, Jesus faz-se companheiro de viagem, acolhendo as confidências, na partilha da vida, da palavra e do pão.
Quem de nós não se encontrou um dia sobre a estrada de Emaús, com o coração cheio de questões e de esperanças desiludidas? Quantas vezes não pensamos que o Senhor fica retido nos sacrários e que caminhamos sozinhos no mundo? Ainda hoje, quando sobre a nossa fé desce a noite, os passos de Jesus metem-se nos rastos da humanidade, dentro do pó da estrada, e ao ritmo do seu coração. O problema não é a ausência de Deus, mas é a incapacidade em reconhecê-lo; é a miopia que concentra tudo sobre nós próprios, sobre os nossos problemas.

Caminho de palavra e de pão
Caminhar juntos permite desfolhar as páginas densas da vida com um novo significado. Se a palavra amiga muda o coração, o pão partilhado muda o olhar dos discípulos que reconhecem Jesus no partir do pão. É este o seu estilo; é este o sinal da sua presença como corpo partido e dado, vida doada para alimentar a vida.
Todo o caminho de Emaús é uma liturgia de esperança: faz descobrir o fio de ouro dentro das malhas do mundo; revela a presença silenciosa e escondida de quem nunca nos abandona; é capaz de despertar o dom de um coração aceso, apto a ver o amigo. Emaús obriga a repartir, como se a noite já não fosse noite. O triste caminhar torna-se então alegre corrida com o sol dentro da vida: não há mais noite, nem cansaço, nem tristeza.

“Não ardia cá dentro o nosso coração?”
Esta é a eterna interrogação do homem. Na verdade, desde a saída de Jerusalém até ao regresso, não mudam os factos ou as palavras, muda é o coração dos discípulos. Para reconhecer Jesus não basta conhecer as Escrituras, não basta caminhar com o outro, não basta repetir mecanicamente os gestos da última ceia, se em tudo faltar o ardor do amor. Sem amor é impossível ver Jesus e o outro. Só o amor conhece! Só amor vê e encontra!
É sobre Jesus que os dois discípulos falam; é por causa dele que estão desiludidos e desconsolados. Mas só quando Ele lhes fala, é que arde o coração. Só uma vida acesa, na partilha dos irmãos, é capaz de incendiar as trevas e desilusões. Ter um coração ardente é o dom precioso de Emaús! E isso, caros amigos, é Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Vou contar tudo quanto Deus faz acontecer em mim e como O reconheço ao partir do Pão.

REZAR A PALAVRA
Senhor, na secura dos sinais, no emaranhado de tantas vozes, vem
agasalha a minha fé e lubrifica o meu entendimento e reconhecer-Te-ei!
Diante das evidências sem sentido, ante recordações sem conteúdo, vem
acolhe-me à mesa, introduz-me na Tua ferida que me sara e experimentar-Te-ei!
Nos abrolhos de uma missão dura, perante o temor e a fragilidade, vem
sopra sobre mim o Teu Espírito, mergulha-me na Ressurreição e anunciar-Te-ei!