quinta-feira, 10 de abril de 2014

Domingo de Ramos Quaresma A


Evangelho segundo S. Mateus 26, 14-27, 66
Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo: «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo». Tomou em seguida um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: «Bebei dele todos, porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado pela multidão, para remissão dos pecados». […] Jesus tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar-Se. Disse-lhes então: «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai comigo». […] Disse-lhes Pilatos: «E que hei-de fazer de Jesus, chamado Cristo?». Responderam todos: «Seja crucificado». Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no para levar a cruz de Jesus. Desde o meio-dia até às três horas da tarde, as trevas envolveram toda a terra. E, pelas três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte: «Eli, Eli, lema sabactáni?», que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?». […] Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam Jesus, ao verem o tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram aterrados e disseram: «Este era verdadeiramente Filho de Deus».

Caros amigos e amigas, a leitura do Evangelho deste Domingo narra a paixão de um Deus apaixonado pelo Homem… O pedido de Jesus “Ficai comigo” continua a convidar a nossa história a ser narrada com a d’Ele…

Interpelações da Palavra

Duas cores, dois refrães, duas histórias…
Escrita a duas cores, desde o verde das folhas dos Ramos até ao vermelho do sangue no Calvário, na narração da paixão oscilam dois refrães: “Hossana!” e “Crucifica-o!”… Quem diria que, com algumas horas de permeio, estes dois refrães estão dirigidos ao mesmo homem e têm como reação, a mesma mansidão, a mesma humildade, a mesma doçura! Quão volúveis são as nossas aclamações, que hoje erguem e amanhã derrubam, e quão constante é a fidelidade deste Deus, inabalável na esperança, excessiva no amor.
Neste texto encontramos duas histórias sobrepostas: a nossa própria história contada entre o sono e o medo, entre o desmazelo e a indiferença, entre a violência e a barbaridade, entre o egoísmo e a morte; que é recontada pela resposta do amor que tudo transforma em confiança, atenção, ternura, perdão, ressurreição…

Se és Filho de Deus, desce da Cruz
Qualquer outro deus teria cedido a tal provocação. Mas o Deus de Jesus pode apenas aquilo que o amor pode! E o amor divino é criativo e louco, exibe a maior prova de amor quando dá a vida pelos amigos. O Amor abraça a cruz, porque nela abraça as cruzes de cada filho. Deus entra na morte porque na morte entra também cada um dos seus filhos. O Amante participa de todas as dores que os seus amados possam sofrer (Ronchi).
Na cruz, Deus não grita belas palavras ou teorias, mas assina com a própria vida todo o Evangelho, rubrica com o seu sangue todo o seu amor. Deus “crucifica” o seu amor para que não fiquem dúvidas! Naquela “árvore da vida”, Deus “vinga-se” definitivamente da distância, da indiferença, da separação: nada o impedirá de ser o Emanuel, o “Deus connosco”, para sempre. Nem a morte nos poderá separar! A beleza de Cristo na cruz não é por ter sofrido por nós, mas por ter transformado todo aquele sofrimento num acto de amor: a cruz é um convite radical a não sofrer, porque a amar sempre, a qualquer preço, mesmo até ao preço da vida.

Este era verdadeiramente Filho de Deus
Que terá visto o centurião na agonia daquele moribundo, de modo a fazer o primeiro acto de fé cristão? Presumo que no rosto daquele agonizante, ele tenha visto o coração de Deus e pressentido a ressurreição.
É de joelhos no lava-pés, e em silêncio no alto do calvário, que descobrimos o verdadeiro rosto de Deus. Ali aprendem-se os gestos humanos e eucarísticos que nos tornam verdadeiramente divinos. Diante do mistério amoroso da cruz apenas podemos ajoelhar, agradecer e deixar a nossa história ser semeada pela do Filho de Deus, pois o grão caído à terra dá muito fruto! E isso, amigos e amigas, é a abundante safra do Evangelho!


Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Senhor, entrego-te a superficialidade da minha aclamação para que se aprofunde na tua mansidão;
Estendo-te a minha fome nesta ceia onde te dás como presença humilde, como alimento de vida;
Recosto a minha tibieza neste jardim onde a tua vigília me dedica um sim amargo e fiel;
Ofereço-te o meu medo e a minha negação para que o teu sim me regue e fertilize a força;
Abro-te o meu caminho onde escreves, de passos ensanguentados, a meta que me pedes;
Entrego-te o madeiro para que te abra os braços com que me hás-de abraçar;
Aponto-te a lança que há-de abrir o cofre do teu coração, para que me recebas e me sacies…

Viver a Palavra

Quero deixar que a narração do amor levado ao extremo, inspire a história que escrevo todos os dias.

sábado, 5 de abril de 2014

Encontro de formação bíblica






V Domingo Quaresma A



Evangelho segundo S. João 11, 3-7.17.20-27.33b-45
Naquele tempo, as irmãs de Lázaro mandaram dizer a Jesus: «Senhor, o teu amigo está doente». Ouvindo isto, Jesus disse: «Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus, para que por ela seja glorificado o Filho do homem». Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro. Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente, ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava. Depois disse aos discípulos: «Vamos de novo para a Judeia». Ao chegar lá, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias. Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar, Marta saiu ao seu encontro, enquanto Maria ficou sentada em casa. Marta disse a Jesus: «Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá». Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará». Marta respondeu: «Eu sei que há-de ressuscitar na ressurreição do último dia». Disse-lhe Jesus: «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim nunca morrerá. Acreditas nisto?». Disse-Lhe Marta: «Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo». Jesus comoveu-Se profundamente e perturbou-Se. Depois perguntou: «Onde o pusestes?». Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor». E Jesus chorou. Diziam então os judeus: «Vede como era seu amigo». Mas alguns deles observaram: «Então Ele, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito que este homem não morresse?». Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo. Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada. Disse Jesus: «Tirai a pedra». Respondeu Marta, irmã do morto: «Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias». Disse Jesus: «Eu não te disse que, se acreditasses, verias a glória de Deus?». Tiraram então a pedra. Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse: «Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas falei assim por causa da multidão que nos cerca, para acreditarem que Tu Me enviaste». Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, sai para fora». O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Disse-lhes Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir». Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria, ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele».

Caros amigos e amigas, se neste Evangelho é narrada a dilaceração provocada pela morte, mais ainda é manifestada toda a potência do amor e da ressurreição! Jesus é a ressurreição e a vida!

Interpelações da Palavra
Se tivesses estado aqui!
Na casa de Betânia estão agora presentes sinais de morte e desilusão. Lázaro tinha-se apagado nos braços amorosos de Marta e Maria, mas distante das mãos vivificantes do Amigo. Por isso, o lamento de Marta recorda os nossos: onde estavas, ó Deus? Porque não escutaste o meu desespero? Porque foste tão indiferente à doença e à morte? O grito da humanidade condena o atraso de Deus! Até parece que Deus dá liberdade à morte, permite a decomposição, não põe obstáculos à putrefacção, aceita que os infernos se assenhorem de Lázaro, que nos emprisionem, de modo que qualquer esperança humana seja perdida e que a violência do desespero tudo destrua!
Mas, talvez, o atraso de Jesus quisesse, mais do que afastar a doença, vencer a morte. Amar não é fazer sair da cama, mas é trazer da escuridão infernal o amigo. Amar não é arranjar uma medicina para uma doença, mas oferecer a glória da ressurreição. Além disso, a morte de Lázaro era necessária, para que a fé dos discípulos e a nossa, sepultada com Lázaro, também com ele ressuscitasse (S. Pedro Crisólogo).

O amor faz-se lágrima
Diante do túmulo do amigo Jesus comove-se, perturba-se, chora, levanta os olhos, dá graças… Mas que Deus é este que se deixa contagiar pela dor e chora diante dos nossos túmulos? Só o Deus de Jesus chora porque sabe que, por vezes, as lágrimas são o único modo de amar, de rezar. O homem não é um estranho indiferente, é o amigo! As lágrimas de Jesus são a sua declaração de amor, a revolta contra a morte, o sinal da ferida do coração divino, são prova de amor, fraterno e fiel, sensível e delicado. O choro de Deus é grito pela vida de quem ama. É este brado que rouba Lázaro ao sepulcro. Ainda hoje, com amor, Deus grita por nós, percorre o país da morte, vence abismos que pareciam intransponíveis.
A morte pode envolver a pessoa de ligaduras, impedi-la de ser e de viver, enterrá-la no esquecimento, mas não impedirá os laços indestrutíveis de amor que nos ligam a Deus. Para Ele não existe um sepulcro do qual não se possa sair, não existem mortalhas que não se possam desligar, não há sudários sufocantes que não se possam tirar, não há gruta tão profunda e escura que não possa ser violada, não existe pedra tão grande que não possa ser removida, nem ninguém é um cadáver tão malcheiroso que não possa renascer de novo, porque não há morte que não possa ser vencida pelo amor!

“Eu sou a ressurreição e a vida”
Esta narração fala de mim, de ti, da humanidade. Sem o Amigo não há vida e só quando Ele regressa, regressam também à vida as realidades enterradas e deterioradas. A ressurreição é possível pelas lágrimas de Deus! Para Ele não basta partilhar a vida, assumir as bodas e as alegrias, viver o cansaço diário e as preocupações. Mas Ele quis assumir também a batalha final, a da morte, apontando o caminho da vitória, o da manhã de Páscoa quando, diante dos nossos túmulos, gritará amorosamente o nosso nome para nos abraçar eternamente. Esta é a alegria do Evangelho!


Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Senhor, fonte de vida infinita… “São tantas batalhas” que tentam matar a coragem que semeias em mim,
“É tão funda a dor”que teima matar o sorriso que imprimes em cada dia,
“São tantos os medos calados por dentro” que ameaçam matar a esperança do amanhã,
“São tantos olhares de espanto, vazios” que  anunciam matar a novidade da Vida…
Caído no chão, creio na vida que és, que me dás, porque és Amor! Ressuscita-me!

Viver a Palavra

Vou descobrir sinais de vida, onde a morte parece reinar.

sexta-feira, 28 de março de 2014

IV Domingo Quaresma A



Evangelho segundo S. João 9, 1.6-9.13-17.34-38
Naquele tempo, Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença. Cuspiu em terra, fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego. Depois disse-lhe: «Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado». Ele foi, lavou-se e começou a ver. Entretanto, perguntavam os vizinhos e os que o viam a mendigar: «Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?». Uns diziam: «É ele». Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele». Mas ele próprio dizia: «Sou eu». Levaram aos fariseus o que tinha sido cego. Era sábado esse dia em que Jesus fizera lodo e lhe tinha aberto os olhos. Por isso, os fariseus perguntaram ao homem como tinha recuperado a vista. Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos; depois fui lavar-me e agora vejo». Diziam alguns dos fariseus: «Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado». Outros observavam: «Como pode um pecador fazer tais milagres?». E havia desacordo entre eles. Perguntaram então novamente ao cego: «Tu que dizes d’Aquele que te deu a vista?». O homem respondeu: «É um profeta». Replicaram-lhe então eles: «Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?».E expulsaram-no. Jesus soube que o tinham expulsado e, encontrando-o, disse-lhe: «Tu acreditas no Filho do homem?». Ele respondeu-Lhe: «Quem é, Senhor, para que eu acredite n’Ele?». Disse-lhe Jesus: «Já O viste: é quem está a falar contigo». O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou: «Eu creio, Senhor».

Caros amigos e amigas, hoje repete-se o acto criador. A saliva de Deus, húmida e quente… viva, mistura-se com o barro informe, cego. Deus modela a sua obra. O Deus oleiro tem uma visão para dar ao nosso olhar…

Interpelações da Palavra
“Jesus encontrou um cego de nascença”
O olhar é uma questão de direcção e de intensidade. O de Jesus descortina, por debaixo da figura do pobre cego, um homem pronto a nascer. Deus vê mise­ricordiosamente além da superfície, olha com o coração para ver o coração. Não é o homem que procura e vê Deus; é Deus que nos contempla amorosa­mente, desejando que O possamos ver. Quando encontra as trevas, o Mestre inicia uma liturgia de vida e repete, no rosto dos cegos, os gestos da criação de um Deus atento a recriar o homem. O céu de Deus conti­nua hoje a amassar-se com a nossa terra, e as mãos do oleiro acariciam as nossas cinzas, fecundando-as com o fulgor da sua luz.

A visão de um cego
O cego de nascença não se arrasta em lamúrias, não procura explica­ções para a sua desgraça, não deita culpas pecaminosas sobre alguém. Espera apenas palavras orientadoras e mãos compassivas que possam acrescentar algo aos seus olhos apagados. É um homem sem voz e sem nome, que deixa os dedos do Mestre enchê-lo de lodo e de beijos, modelando nele os olhos do homem novo. É alguém que confia, de olhos fechados, que deixa a voz do Verbo acariciar-lhe a vida, que permite à Luz rasgar-lhe a noite interior. Ainda de olhos vazios, acende-se no seu íntimo uma esperança que o põe a caminho. Junto da piscina associará, pela primeira vez, vozes e rumores a rostos e imagens que nunca tinha visto. Depois procurará aquele homem, Filho de Deus, o “Senhor” com voz de primavera, capaz de gestos renovadores e criadores de mais vida.

A cegueira de tantos olhares
Quem estava antes na periferia da vida é agora o centro das atenções. Um carrossel de cegos gira à volta da sua história à procura das areias que atrasam a vida, sem tirar primeiro as próprias traves que impedem de ver o mila­gre. Os fariseus, blindados em teorias, não entendem o detalhe que faz desabrochar a esperança.
Ontem como hoje, procuram-se explicações e quem errou, mas poucos sentem dor pelos olhos desabitados dos cegos, poucos se deixam encantar por novos olhares. Burocratas de ideias mas analfabetos do coração; defensores de doutrinas mas indiferentes à dor; crentes sem coração, não vemos as pessoas e os sinais que Deus realiza (Ronchi). Jesus, porém, não se enreda a procurar culpas ou justificações para a doença. Ele é a compaixão, a mão viva que toca o coração, o arco-íris que colore um mundo novo. Enquanto o Senhor ungia e curava o cego, abria também secretamente os olhos de outros cegos e limpava-lhes a cegueira do seu cora­ção (S. Efrém). No fim, o cego torna-se discípulo, de olhos enamorados e coração aberto. Agora, diante de todos, é ele que dialoga, contagia e ­teste­munha os prodígios que Deus realiza nele… torna-se um foco de Evangelho!


Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Senhor, hoje venho pedir-te que introduzas a luz do teu amor na minha falta de visão e de fé.
Semeia de novo os meus olhos velhos na terra fecundada com a saliva da tua Palavra:
para que possam germinar novos neste apelo de primavera, caminhada de ressurreição.
Faz desabrochar em mim olhares capazes de captar os teus milagres e de semearem luz
nos terrenos apagados da dor e da descrença. Senhor, unge os meus olhos com o teu olhar!

Viver a Palavra

Vou procurar ver tudo o que me rodeia com olhos de fé, procurando acolher, valorizar e iluminar!