Já que tantas empresas pugnam por apesentar destinos atraentes para a passagem de ano, também nós fomos ao Evangelho segundo S. Marcos (mas os outros Evangelistas ainda deram uma mãozinha) a procurar destinos inesquecíveis para uma noite única: entrar no ano 2015 de Bíblia na mão!!!
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz 2015
JÁ NÃO ESCRAVOS, MAS IRMÃOS
1. No início dum novo ano, que acolhemos como uma graça e um dom de Deus para a humanidade, desejo dirigir, a cada homem e mulher, bem como a todos os povos e nações do mundo, aos chefes de Estado e de Governo e aos responsáveis das várias religiões, os meus ardentes votos de paz, que acompanho com a minha oração a fim de que cessem as guerras, os conflitos e os inúmeros sofrimentos provocados quer pela mão do homem quer por velhas e novas epidemias e pelos efeitos devastadores das calamidades naturais. Rezo de modo particular para que, respondendo à nossa vocação comum de colaborar com Deus e com todas as pessoas de boa vontade para a promoção da concórdia e da paz no mundo, saibamos resistir à tentação de nos comportarmos de forma não digna da nossa humanidade.
Já, na minha mensagem para o 1º de Janeiro passado, fazia notar que «o anseio duma vida plena (…) contém uma aspiração irreprimível de fraternidade, impelindo à comunhão com os outros, em quem não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos acolher e abraçar».[1] Sendo o homem um ser relacional, destinado a realizar-se no contexto de relações interpessoais inspiradas pela justiça e a caridade, é fundamental para o seu desenvolvimento que sejam reconhecidas e respeitadas a sua dignidade, liberdade e autonomia. Infelizmente, o flagelo generalizado da exploração do homem pelo homem fere gravemente a vida de comunhão e a vocação a tecer relações interpessoais marcadas pelo respeito, a justiça e a caridade. Tal fenómeno abominável, que leva a espezinhar os direitos fundamentais do outro e a aniquilar a sua liberdade e dignidade, assume múltiplas formas sobre as quais desejo deter-me, brevemente, para que, à luz da Palavra de Deus, possamos considerar todos os homens, «já não escravos, mas irmãos».
À escuta do projecto de Deus para a humanidade
2. O tema, que escolhi para esta mensagem, inspira-se na Carta de São Paulo a Filémon; nela, o Apóstolo pede ao seu colaborador para acolher Onésimo, que antes era escravo do próprio Filémon mas agora tornou-se cristão, merecendo por isso mesmo, segundo Paulo, ser considerado um irmão. Escreve o Apóstolo dos gentios: «Ele foi afastado por breve tempo, a fim de que o recebas para sempre, não já como escravo, mas muito mais do que um escravo, como irmão querido» (Flm 15-16). Tornando-se cristão, Onésimo passou a ser irmão de Filémon. Deste modo, a conversão a Cristo, o início duma vida de discipulado em Cristo constitui um novo nascimento (cf. 2 Cor 5, 17; 1 Ped 1, 3), que regenera a fraternidade como vínculo fundante da vida familiar e alicerce da vida social.
Lemos, no livro do Génesis (cf. 1, 27-28), que Deus criou o ser humano como homem e mulher e abençoou-os para que crescessem e se multiplicassem: a Adão e Eva, fê-los pais, que, no cumprimento da bênção de Deus para ser fecundos e multiplicar-se, geraram a primeira fraternidade: a de Caim e Abel. Saídos do mesmo ventre, Caim e Abel são irmãos e, por isso, têm a mesma origem, natureza e dignidade de seus pais, criados à imagem e semelhança de Deus.
Mas, apesar de os irmãos estarem ligados por nascimento e possuírem a mesma natureza e a mesma dignidade, a fraternidadeexprime também a multiplicidade e a diferença que existe entre eles. Por conseguinte, como irmãos e irmãs, todas as pessoas estão, por natureza, relacionadas umas com as outras, cada qual com a própria especificidade e todas partilhando a mesma origem, natureza e dignidade. Em virtude disso, a fraternidade constitui a rede de relações fundamentais para a construção da família humana criada por Deus.
Infelizmente, entre a primeira criação narrada no livro do Génesis e o novo nascimento em Cristo – que torna, os crentes, irmãos e irmãs do «primogénito de muitos irmãos» (Rom 8, 29) –, existe a realidade negativa do pecado, que interrompe tantas vezes a nossa fraternidade de criaturas e deforma continuamente a beleza e nobreza de sermos irmãos e irmãs da mesma família humana. Caim não só não suporta o seu irmão Abel, mas mata-o por inveja, cometendo o primeiro fratricídio. «O assassinato de Abel por Caim atesta, tragicamente, a rejeição radical da vocação a ser irmãos. A sua história (cf. Gen 4, 1-16) põe em evidência o difícil dever, a que todos os homens são chamados, de viver juntos, cuidando uns dos outros».[2]
Também na história da família de Noé e seus filhos (cf. Gen 9, 18-27), é a falta de piedade de Cam para com seu pai, Noé, que impele este a amaldiçoar o filho irreverente e a abençoar os outros que o tinham honrado, dando assim lugar a uma desigualdade entre irmãos nascidos do mesmo ventre.
Na narração das origens da família humana, o pecado de afastamento de Deus, da figura do pai e do irmão torna-se uma expressão da recusa da comunhão e traduz-se na cultura da servidão (cf. Gen 9, 25-27), com as consequências daí resultantes que se prolongam de geração em geração: rejeição do outro, maus-tratos às pessoas, violação da dignidade e dos direitos fundamentais, institucionalização de desigualdades. Daqui se vê a necessidade duma conversão contínua à Aliança levada à perfeição pela oblação de Cristo na cruz, confiantes de que, «onde abundou o pecado, superabundou a graça (…) por Jesus Cristo» (Rom 5, 20.21). Ele, o Filho amado (cf. Mt 3, 17), veio para revelar o amor do Pai pela humanidade. Todo aquele que escuta o Evangelho e acolhe o seu apelo à conversão, torna-se, para Jesus, «irmão, irmã e mãe» (Mt 12, 50) e, consequentemente, filho adoptivo de seu Pai (cf. Ef 1, 5).
No entanto, os seres humanos não se tornam cristãos, filhos do Pai e irmãos em Cristo por imposição divina, isto é, sem o exercício da liberdade pessoal, sem se converterem livremente a Cristo. Ser filho de Deus requer que primeiro se abrace o imperativo da conversão: «Convertei-vos – dizia Pedro no dia de Pentecostes – e peça cada um o baptismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito Santo» (Act 2, 38). Todos aqueles que responderam com a fé e a vida àquela pregação de Pedro, entraram na fraternidade da primeira comunidade cristã (cf. 1 Ped 2, 17; Act 1, 15.16; 6, 3; 15, 23): judeus e gregos, escravos e homens livres (cf. 1 Cor 12, 13; Gal 3, 28), cuja diversidade de origem e estado social não diminui a dignidade de cada um, nem exclui ninguém do povo de Deus. Por isso, a comunidade cristã é o lugar da comunhão vivida no amor entre os irmãos (cf. Rom 12, 10; 1 Tes 4, 9; Heb 13, 1; 1 Ped 1, 22; 2 Ped 1, 7).
Tudo isto prova como a Boa Nova de Jesus Cristo – por meio de Quem Deus «renova todas as coisas» (Ap 21, 5)[3] – é capaz de redimir também as relações entre os homens, incluindo a relação entre um escravo e o seu senhor, pondo em evidência aquilo que ambos têm em comum: a filiação adoptiva e o vínculo de fraternidade em Cristo. O próprio Jesus disse aos seus discípulos: «Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai» (Jo 15, 15).
As múltiplas faces da escravatura, ontem e hoje
3. Desde tempos imemoriais, as diferentes sociedades humanas conhecem o fenómeno da sujeição do homem pelo homem. Houve períodos na história da humanidade em que a instituição da escravatura era geralmente admitida e regulamentada pelo direito. Este estabelecia quem nascia livre e quem, pelo contrário, nascia escravo, bem como as condições em que a pessoa, nascida livre, podia perder a sua liberdade ou recuperá-la. Por outras palavras, o próprio direito admitia que algumas pessoas podiam ou deviam ser consideradas propriedade de outra pessoa, a qual podia dispor livremente delas; o escravo podia ser vendido e comprado, cedido e adquirido como se fosse uma mercadoria qualquer.
Hoje, na sequência duma evolução positiva da consciência da humanidade, a escravatura – delito de lesa humanidade[4] – foi formalmente abolida no mundo. O direito de cada pessoa não ser mantida em estado de escravidão ou servidão foi reconhecido, no direito internacional, como norma inderrogável.
Mas, apesar de a comunidade internacional ter adoptado numerosos acordos para pôr termo à escravatura em todas as suas formas e ter lançado diversas estratégias para combater este fenómeno, ainda hoje milhões de pessoas – crianças, homens e mulheres de todas as idades – são privadas da liberdade e constrangidas a viver em condições semelhantes às da escravatura.
Penso em tantos trabalhadores e trabalhadoras, mesmo menores, escravizados nos mais diversos sectores, a nível formal e informal, desde o trabalho doméstico ao trabalho agrícola, da indústria manufactureira à mineração, tanto nos países onde a legislação do trabalho não está conforme às normas e padrões mínimos internacionais, como – ainda que ilegalmente – naqueles cuja legislação protege o trabalhador.
Penso também nas condições de vida de muitos migrantes que, ao longo do seu trajecto dramático, padecem a fome, são privados da liberdade, despojados dos seus bens ou abusados física e sexualmente. Penso em tantos deles que, chegados ao destino depois duma viagem duríssima e dominada pelo medo e a insegurança, ficam detidos em condições às vezes desumanas. Penso em tantos deles que diversas circunstâncias sociais, políticas e económicas impelem a passar à clandestinidade, e naqueles que, para permanecer na legalidade, aceitam viver e trabalhar em condições indignas, especialmente quando as legislações nacionais criam ou permitem uma dependência estrutural do trabalhador migrante em relação ao dador de trabalho como, por exemplo, condicionando a legalidade da estadia ao contrato de trabalho... Sim! Penso no «trabalho escravo».
Penso nas pessoas obrigadas a prostituírem-se, entre as quais se contam muitos menores, e nas escravas e escravos sexuais; nas mulheres forçadas a casar-se, quer as que são vendidas para casamento quer as que são deixadas em sucessão a um familiar por morte do marido, sem que tenham o direito de dar ou não o próprio consentimento.
Não posso deixar de pensar a quantos, menores e adultos, são objecto de tráfico e comercialização para remoção de órgãos, para ser recrutados como soldados, para servir de pedintes, para actividades ilegais como a produção ou venda de drogas, ou paraformas disfarçadas de adopção internacional.
Penso, enfim, em todos aqueles que são raptados e mantidos em cativeiro por grupos terroristas, servindo os seus objectivos como combatentes ou, especialmente no que diz respeito às meninas e mulheres, como escravas sexuais. Muitos deles desaparecem, alguns são vendidos várias vezes, torturados, mutilados ou mortos.
Algumas causas profundas da escravatura
4. Hoje como ontem, na raiz da escravatura, está uma concepção da pessoa humana que admite a possibilidade de a tratar como um objecto. Quando o pecado corrompe o coração do homem e o afasta do seu Criador e dos seus semelhantes, estes deixam de ser sentidos como seres de igual dignidade, como irmãos e irmãs em humanidade, passando a ser vistos como objectos. Com a força, o engano, a coacção física ou psicológica, a pessoa humana – criada à imagem e semelhança de Deus – é privada da liberdade, mercantilizada, reduzida a propriedade de alguém; é tratada como meio, e não como fim.
Juntamente com esta causa ontológica – a rejeição da humanidade no outro –, há outras causas que concorrem para se explicar as formas actuais de escravatura. Entre elas, penso em primeiro lugar na pobreza, no subdesenvolvimento e na exclusão, especialmente quando os três se aliam com a falta de acesso à educação ou com uma realidade caracterizada por escassas, se não mesmo inexistentes, oportunidades de emprego. Não raro, as vítimas de tráfico e servidão são pessoas que procuravam uma forma de sair da condição de pobreza extrema e, dando crédito a falsas promessas de trabalho, caíram nas mãos das redes criminosas que gerem o tráfico de seres humanos. Estas redes utilizam habilmente as tecnologias informáticas modernas para atrair jovens e adolescentes de todos os cantos do mundo.
Entre as causas da escravatura, deve ser incluída também a corrupção daqueles que, para enriquecer, estão dispostos a tudo. Na realidade, a servidão e o tráfico das pessoas humanas requerem uma cumplicidade que muitas vezes passa através da corrupção dos intermediários, de alguns membros das forças da polícia, de outros actores do Estado ou de variadas instituições, civis e militares. «Isto acontece quando, no centro de um sistema económico, está o deus dinheiro, e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de cada sistema social ou económico, deve estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse o dominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e chega o deus dinheiro, dá-se esta inversão de valores».[5]
Outras causas da escravidão são os conflitos armados, as violências, a criminalidade e o terrorismo. Há inúmeras pessoas raptadas para ser vendidas, recrutadas como combatentes ou exploradas sexualmente, enquanto outras se vêem obrigadas a emigrar, deixando tudo o que possuem: terra, casa, propriedades e mesmo os familiares. Estas últimas, impelidas a procurar uma alternativa a tão terríveis condições, mesmo à custa da própria dignidade e sobrevivência, arriscam-se assim a entrar naquele círculo vicioso que as torna presa da miséria, da corrupção e das suas consequências perniciosas.
Um compromisso comum para vencer a escravatura
5. Quando se observa o fenómeno do comércio de pessoas, do tráfico ilegal de migrantes e de outras faces conhecidas e desconhecidas da escravidão, fica-se frequentemente com a impressão de que o mesmo tem lugar no meio da indiferença geral.
Sem negar que isto seja, infelizmente, verdade em grande parte, apraz-me mencionar o enorme trabalho que muitas congregações religiosas, especialmente femininas, realizam silenciosamente, há tantos anos, a favor das vítimas. Tais institutos actuam em contextos difíceis, por vezes dominados pela violência, procurando quebrar as cadeias invisíveis que mantêm as vítimas presas aos seus traficantes e exploradores; cadeias, cujos elos são feitos não só de subtis mecanismos psicológicos que tornam as vítimas dependentes dos seus algozes, através de chantagem e ameaça a eles e aos seus entes queridos, mas também através de meios materiais, como a apreensão dos documentos de identidade e a violência física. A actividade das congregações religiosas está articulada a três níveis principais: o socorro às vítimas, a sua reabilitação sob o perfil psicológico e formativo e a sua reintegração na sociedade de destino ou de origem.
Este trabalho imenso, que requer coragem, paciência e perseverança, merece o aplauso da Igreja inteira e da sociedade. Naturalmente o aplauso, por si só, não basta para se pôr termo ao flagelo da exploração da pessoa humana. Faz falta também um tríplice empenho a nível institucional: prevenção, protecção das vítimas e acção judicial contra os responsáveis. Além disso, assim como as organizações criminosas usam redes globais para alcançar os seus objectivos, assim também a acção para vencer este fenómeno requer um esforço comum e igualmente global por parte dos diferentes actores que compõem a sociedade.
Os Estados deveriam vigiar por que as respectivas legislações nacionais sobre as migrações, o trabalho, as adopções, a transferência das empresas e a comercialização de produtos feitos por meio da exploração do trabalho sejam efectivamente respeitadoras da dignidade da pessoa. São necessárias leis justas, centradas na pessoa humana, que defendam os seus direitos fundamentais e, se violados, os recuperem reabilitando quem é vítima e assegurando a sua incolumidade, como são necessários também mecanismos eficazes de controle da correcta aplicação de tais normas, que não deixem espaço à corrupção e à impunidade. É preciso ainda que seja reconhecido o papel da mulher na sociedade, intervindo também no plano cultural e da comunicação para se obter os resultados esperados.
As organizações intergovernamentais são chamadas, no respeito pelo princípio da subsidiariedade, a implementar iniciativas coordenadas para combater as redes transnacionais do crime organizado que gerem o mercado de pessoas humanas e o tráfico ilegal dos migrantes. Torna-se necessária uma cooperação a vários níveis, que englobe as instituições nacionais e internacionais, bem como as organizações da sociedade civil e do mundo empresarial.
Com efeito, as empresas[6] têm o dever não só de garantir aos seus empregados condições de trabalho dignas e salários adequados, mas também de vigiar por que não tenham lugar, nas cadeias de distribuição, formas de servidão ou tráfico de pessoas humanas. A par da responsabilidade social da empresa, aparece depois a responsabilidade social do consumidor. Na realidade, cada pessoa deveria ter consciência de que «comprar é sempre um acto moral, para além de económico».[7]
As organizações da sociedade civil, por sua vez, têm o dever de sensibilizar e estimular as consciências sobre os passos necessários para combater e erradicar a cultura da servidão.
Nos últimos anos, a Santa Sé, acolhendo o grito de sofrimento das vítimas do tráfico e a voz das congregações religiosas que as acompanham rumo à libertação, multiplicou os apelos à comunidade internacional pedindo que os diversos actores unam os seus esforços e cooperem para acabar com este flagelo.[8] Além disso, foram organizados alguns encontros com a finalidade de dar visibilidade ao fenómeno do tráfico de pessoas e facilitar a colaboração entre os diferentes actores, incluindo peritos do mundo académico e das organizações internacionais, forças da polícia dos diferentes países de origem, trânsito e destino dos migrantes, e representantes dos grupos eclesiais comprometidos em favor das vítimas. Espero que este empenho continue e se reforce nos próximos anos.
Globalizar a fraternidade, não a escravidão nem a indiferença
6. Na sua actividade de «proclamação da verdade do amor de Cristo na sociedade»,[9] a Igreja não cessa de se empenhar em acções de carácter caritativo guiada pela verdade sobre o homem. Ela tem o dever de mostrar a todos o caminho da conversão, que induz a voltar os olhos para o próximo, a ver no outro – seja ele quem for – um irmão e uma irmã em humanidade, a reconhecer a sua dignidade intrínseca na verdade e na liberdade, como nos ensina a história de Josefina Bakhita, a Santa originária da região do Darfur, no Sudão. Raptada por traficantes de escravos e vendida a patrões desalmados desde a idade de nove anos, haveria de tornar-se, depois de dolorosas vicissitudes, «uma livre filha de Deus» mediante a fé vivida na consagração religiosa e no serviço aos outros, especialmente aos pequenos e fracos. Esta Santa, que viveu a cavalo entre os séculos XIX e XX, é também hoje testemunha exemplar de esperança[10] para as numerosas vítimas da escravatura e pode apoiar os esforços de quantos se dedicam à luta contra esta «ferida no corpo da humanidade contemporânea, uma chaga na carne de Cristo».[11]
Nesta perspectiva, desejo convidar cada um, segundo a respectiva missão e responsabilidades particulares, a realizar gestos de fraternidade a bem de quantos são mantidos em estado de servidão. Perguntemo-nos, enquanto comunidade e indivíduo, como nos sentimos interpelados quando, na vida quotidiana, nos encontramos ou lidamos com pessoas que poderiam ser vítimas do tráfico de seres humanos ou, quando temos de comprar, se escolhemos produtos que poderiam razoavelmente resultar da exploração de outras pessoas. Há alguns de nós que, por indiferença, porque distraídos com as preocupações diárias, ou por razões económicas, fecham os olhos. Outros, pelo contrário, optam por fazer algo de positivo, comprometendo-se nas associações da sociedade civil ou praticando no dia-a-dia pequenos gestos como dirigir uma palavra, trocar um cumprimento, dizer «bom dia» ou oferecer um sorriso; estes gestos, que têm imenso valor e não nos custam nada, podem dar esperança, abrir estradas, mudar a vida a uma pessoa que tacteia na invisibilidade e mudar também a nossa vida face a esta realidade.
Temos de reconhecer que estamos perante um fenómeno mundial que excede as competências de uma única comunidade ou nação. Para vencê-lo, é preciso uma mobilização de dimensões comparáveis às do próprio fenómeno. Por esta razão, lanço um veemente apelo a todos os homens e mulheres de boa vontade e a quantos, mesmo nos mais altos níveis das instituições, são testemunhas, de perto ou de longe, do flagelo da escravidão contemporânea, para que não se tornem cúmplices deste mal, não afastem o olhar à vista dos sofrimentos de seus irmãos e irmãs em humanidade, privados de liberdade e dignidade, mas tenham a coragem de tocar a carne sofredora de Cristo,[12] o Qual Se torna visível através dos rostos inumeráveis daqueles a quem Ele mesmo chama os «meus irmãos mais pequeninos» (Mt 25, 40.45).
Sabemos que Deus perguntará a cada um de nós: Que fizeste do teu irmão? (cf. Gen 4, 9-10). A globalização da indiferença, que hoje pesa sobre a vida de tantas irmãs e de tantos irmãos, requer de todos nós que nos façamos artífices duma globalização da solidariedade e da fraternidade que possa devolver-lhes a esperança e levá-los a retomar, com coragem, o caminho através dos problemas do nosso tempo e as novas perspectivas que este traz consigo e que Deus coloca nas nossas mãos.
Vaticano, 8 de Dezembro de 2014.
FRANCISCUS
sábado, 27 de dezembro de 2014
Sagrada Família B
Evangelho segundo S. João 1, 1-18
Ao chegarem os dias da
purificação, segundo a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para
O apresentarem ao Senhor, como está escrito na Lei do Senhor: «Todo o filho
primogénito varão será consagrado ao Senhor», e para oferecerem em sacrifício
um par de rolas ou duas pombinhas, como se diz na Lei do Senhor. Vivia em
Jerusalém um homem chamado Simeão, homem justo e piedoso, que esperava a
consolação de Israel; e o Espírito Santo estava nele. O Espírito Santo
revelara-lhe que não morreria antes de ver o Messias do Senhor; e veio ao
templo, movido pelo Espírito. Quando os pais de Jesus trouxeram o Menino, para
cumprirem as prescrições da Lei no que lhes dizia respeito, Simeão recebeu-O em
seus braços e bendisse a Deus, exclamando: «Agora, Senhor, segundo a vossa
palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa
salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos: luz para se revelar às
nações e glória de Israel, vosso povo». O pai e a mãe do Menino Jesus estavam
admirados com o que d’Ele se dizia. Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua
Mãe: «Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em
Israel e para ser sinal de contradição; – e uma espada trespassará a tua alma –
assim se revelarão os pensamentos de todos os corações». Havia também uma
profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada e
tinha vivido casada sete anos após o tempo de donzela e viúva até aos oitenta e
quatro. Não se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia, com jejuns e
orações. Estando presente na mesma ocasião, começou também a louvar a Deus e a
falar acerca do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. Cumpridas
todas as prescrições da Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua
cidade de Nazaré. Entretanto, o Menino crescia, tornava-Se robusto e enchia-Se
de sabedoria. E a graça de Deus estava com Ele.
Caros amigos e amigas, Jesus não é um
solitário ou um herói isolado, Jesus acontece e cresce em família, ensina-nos a
comunhão e a novidade de cada encontro.
Interpelações da Palavra
Recebeu-O em seus braços
Simeão viveu um advento de esperança, na
criatividade de cada hora, sem perder o olhar da luz e da verdadeira
consolação. Só nesta justiça de coração pode habitar Jesus e é nestes braços,
como foi nos de Maria, que Jesus se deixa receber. O sorriso, cheio do Espírito
Santo, de Simeão, contornado pela sabedoria e confiança, acolhe o mistério que
esperara. Também nós não devemos desistir de esperar, mesmo que o tempo limite
as possibilidades. Quando recebemos Jesus no colo, quando acolhemos aquele que
nos acolhe, os olhos rasgam-se para a certeza da salvação e a luz dissipa o
cinzento de cada espera.
São estes sorrisos, rebentos de calor e de Luz, que
nos fazem acreditar, como em Maria e José, e ficar maravilhados com cada
milagre que o Senhor faz nas páginas do tempo.
Não se afastava do templo
Ana também vê a família, o crescer e o caminhar de
um laço divino e santo. Vê a alegria da consagração e a profecia da espada. Vê
a proteção de José e a ternura de Maria. Vê a beleza do Natal, do Deus que se
aproxima e se faz encontro no coração que espera. Ana vê, porque esperou a
liberdade. Só um coração sedento de cor pode ver a Luz. Ana não se afastava do
tempo e servia. O tempo não lhe criou vícios e mantém-se na espera porque
acredita no amor, acredita na alegria de Deus. Como se deixou procurar por Deus
Menino, agora canta, louva de alma jovem e sorriso de criança, fala acerca
deste menino que a tornou criança de novo, aberta à novidade do mistério… pois
estava lá, não se afastava do templo, onde viu a família chegar.
Crescia e enchia-se de sabedoria
Rezar a Palavra e contemplar o
Mistério
Senhor
Jesus, Menino da família de Nazaré, estrela da comunhão e fortaleza do laço da
caridade
Ensina-me
o abraço de filho na doçura e docilidade, na descoberta e criatividade do
tempo,
a
candura de mãe na ternura e sensibilidade, no silêncio, na disponibilidade de
cada espaço.
Ensina-me
a vigilância de pai na justiça e sabedoria, no desafio e segurança de cada
crescer.
Jesus,
Menino da família de Nazaré, seja cada família um eco da beleza daquela que Te
acolheu.
Viver a Palavra
Vou agradecer
reforçar cada laço que se constrói na minha família.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
Entrevista no presépio
Maria deu à luz o seu filho primogénito, e O enfaixou
e reclinou numa manjedoura,
porque não havia lugar para eles na hospedaria. Lc 2,
I. A manjedoura
Até agora experimentei o peso e a mentira da geada
inclemente
perturbada pelas indecisões da noite e o volume inquieto
da atmosfera.
Agora é um calor novo, alvorecido nas entranhas da noite,
que tão levemente me pesa!
No côncavo da minha disponibilidade recolhe-se o fruto de
um ventre humilde,
para uma nova gestação da humildade.
Trago, da trepidação de todas as árvores, o odor do chão
e o segredo dos passos,
os rugidos e os terramotos daquele solo onde esta vida se
vai derramar
em anúncio de conforto aos atribulados, de esperança aos
pobres, de júbilo aos tristes!
Seguro o sono de Quem mantém leve a minha vigília,
tornei-me o trono da alegria!
Hoje todos os desanimados podem vir até mim, deixar o
pranto e ressarcir-se na alegria.
Nesta meninice há uma erupção nova, progride um sabor que
acariciará cansaços e deserções.
A artimanha que faz de qualquer leito um descanso, perdeu
todo o sentido,
porque aqui tudo é expectativa, tudo é exultação, daqui todos
os caminhos bebem metas!
Vinde, todos vós os que andais cansados e oprimidos pela
ditadura da pressa
porque em mim descansa a urgência, vibra a suavidade e agiliza-se
a leveza!
II. A palha
Recordava as montanhas de viço, alimentadas por raízes
presas à terra
e depois a viagem da morte até vales de secura, na eira
que me dilacerou.
Ainda trazia, na superfície tisnada, vestígios do sangue
loiro ao corte da foice madura.
E agora vem este sol novo a mimar-me, embala-me esta
brisa fresca, feita de choro tenro.
A mão de José aconchega-me ao tesouro que todos os cofres
do mundo desejariam abraçar.
A flor voltou, a rainha do trigal, a espiga madura sob o
esplendor perfeito!
Corre-me por dentro uma luz líquida, mesclada de um céu
de topázio!
E retribuo um calor vegetal Àquele que é o brilho e o
calor novos que nunca ousei sonhar…
Estava aqui disponível para alimento de animais e agora
envolvo a alimentação dos tempos,
vida amassada, sob o céu do universo, que se fará pão e
vinho
numa noite em que as estrelas serão olhos, rutilantes de
assombro!
A preciosidade dos céus se faz banquete, aberto a todos
os comensais do mundo,
a fina iguaria dos tempos desceu, na sua confecção de
humanidade,
e eu sou a baixela real onde se requinta o doce manjar!
Vinde, todos vós cuja estiagem da vida secou e
encontrareis a seiva que vos reanimará!
III. As faixas de linho
Já fomos glória da beleza da terra, a nossa flor azul
dançava com o céu, sob a melodia do vento
e agora a beleza consumada adorna, como uma coroa, a
glória da criação!
Já sofremos mil martírios e trazemos no corpo
ressonâncias de gritos e sabor a lágrimas.
Trazemos o sabor das mãos que nos ungiram com a honra do
suor,
que nos sujaram de terra e nos lavaram nos rios do mundo,
com aroma de rosas,
que expurgaram as nossas impurezas e nos acertaram em mil
emaranhados,
que deixaram escapar das suas gretas fios de sangue e
ainda os preparativos da festa.
E hoje a festa é este corpo com que Maria nos envolve ao
seu mistério.
A nossa substância herbácea aconchega-se à ternura com
que Deus abraça o mundo!
Podemos prender e agasalhar o agasalho do tempo, que tudo
liberta.
Hoje aceitamos o bordado de Deus na superfície
acabrunhada do mundo,
esta peça nobilíssima, tecida com os pensamentos da
misericórdia de Deus,
este esplendor da arte mais fina que se borda nas malhas
da criação.
Vinde todos os que andais dispersos, trazei as vias
intermináveis da vossa solidão
porque neste tear, Deus faz das vossas estradas os fios para
urdir o invento da comunhão!
IV. O silêncio
Antes eu era apenas mutismo, a superfície monótona onde a
novidade se esgotava,
agora abraça-me este murmúrio que não me ignora,
harmoniza-me esta melodia que não me atira para o lodo da
mudez…
Agora vem este choro que me incorpora, que se afina com a
minha liberdade.
Feito de sorriso, dou provimento a esta cumplicidade que
não teria sustento em ruídos.
Estes olhos desmesurados, sobre a minha anatomia maleável,
fazem-me manto:
tudo se acolhe à minha sombra, no meu miolo tudo se
interpreta e se pondera,
o segredo de Deus transpira nos meus poros, e hoje dou a
provar… a Palavra!
Os anjos estendem com segurança as asas: suporta-as a
minha delicadeza inconsútil.
O âmago do meu vazio pode ferir-se com as chagas dos
cânticos que filtram a noite.
Vinde todos vós os amordaçados pela indiferença, aqueles
cuja audição entorpeceu:
eu sou a mesa onde a Palavra se reparte, alimentai nela a
vossa comunicação.
V. A luz
Recordo-me como sou a primícia das obras de Deus, o
primeiro fruto do seu “faça-se”,
hoje reeditada e consumada neste confronto decisivo com
as trevas…
Aquelas quatro estrelas, cujo “faça-se” se acende neste
corpo incandescente,
são também janelas de onde jorra a minha essência…
Não me lembrava de tão alto estado em que o meu esplendor
tivesse brilhado,
na alternância dos dias e das noites, nos fogos siderais,
nos incêndios do universo!
Farei um facho alto com a noite e guardarei dentro dela a
força de todos os sóis…
Esta noite é o corpo que transporta a Luz, noite grávida
de todos os dias que vierem.
Esta é a hora de polvilhar todas as obscuridades com a
verdade,
é a hora de acordar os que dormiam sedados pelo
conformismo!
Vinde todos vós que sois os habitantes das trevas e das
sombras da morte,
vinde ver brilhar a Luz do mundo, acendei-vos na sua
aurora!
Natal 2014
Ir. Maria José Oliveira
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