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sexta-feira, 29 de maio de 2015

Santíssima Trindade B


Evangelho segundo S. Mateus 28, 16-20
Naquele tempo, os onze discípulos partiram para a Galileia, em direcção ao monte que Jesus lhes indicara. Quando O viram, adoraram-n’O; mas alguns ainda duvidaram. Jesus aproximou-Se e disse-lhes: «Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide e ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei. Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos.

Caros amigos e amigas, nós que fomos batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, somos convidados neste domingo a contemplar o Santíssima Trindade, mistério de comunhão e de amor, certeza de um Deus que se comunica e se faz presente até ao fim.

Interpelações da Palavra
Viram… adoraram-n’O
A notícia da ressurreição tinha “explodido” junto ao túmulo. Das dúvidas, envoltas em medo, permanece o imperativo de ir para a Galileia, onde veriam o Ressuscitado (Mt 28, 1-10): “Lá me vereis!”. A promessa foi cumprida. Feito o caminho, subido o monte que lhes tinha sido indicado pelo mestre, viram-n’O. Reconheceram Jesus. “Quando O viram”, mesmo duvidando, “adoraram-n’O”… Já não é aquele menino de Belém, envolto pelo luar da noite nos braços de Maria, adorado pelos pastores solitários e pelos (bem)aventurados Magos. Ali, na Galileia, onde O escutaram falar de Deus, onde presenciaram os milagres às multidões, onde foi aliviado o sofrimento e se ofereceu o perdão e a paz, Jesus manifesta-se de novo como Filho muito amado de Deus, o todo poderoso. Os discípulos, tal como os Magos, adoram… Regressados ao berço da missão, encontra-se a fé e a dúvida, a coragem e o medo. Assim é a nossa relação com Jesus: revela-nos sinais de ressurreição, mas ainda duvidamos. O cinzento do Inverno, que ainda trazemos, enevoa as cores da primavera. A adoração sem sorriso não é oração. Deus Trindade é sempre uma boa e alegre notícia.

Ensinai batizando
Ele sabe das nossas balanças e dos nossos cálculos, dos nossos cepticismos cinzelados pelas experiências da vida, por isso, aproxima-se. Enquanto os discípulos adoram e duvidam, Jesus toma a iniciativa e vai, mais uma vez, ao seu encontro. Eles fizeram o caminho, mas é Jesus Quem se revela e dá a conhecer. Deus é sempre próximo. E da adoração do mistério nasce a missão. Adorar e servir andam sempre de mãos dadas. Jesus indica-lhes com clareza qual deve ser agora a sua missão: ensinar e baptizar, fazer discípulos. Esta é também a nossa missão: fazer seguidores de Jesus que conheçam a sua Palavra, comunguem do seu projecto de amor, aprendam a viver como Ele e sejam testemunhas de Deus no mundo de hoje. A força do ressuscitado ampara estas comunidades sempre nascentes, porque renascem do baptismo e do Espírito Santo. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, somos batizados e enviados como discípulos missionários.

Convosco até ao fim
Precisamos re-cordar a força do Credo para saborear a presença de Deus que nos embala e acolhe, ensina e envia. Cremos em Deus Pai porque não estamos sós, Ele é a origem e a meta da nossa vida. Criou-nos por amor e a todos deseja abraçar com coração infinitamente misericordioso. Cremos em Deus Filho, Jesus Cristo, seu único filho, o grande presente que Deus deu ao mundo. Ele ensinou-nos como Deus é Pai. Jesus anima-nos a construir uma vida mais feliz na entrega e serviço aos outros, sempre escutando e cumprindo a vontade do Pai. Cremos em Deus Espírito, que dá a vida, comunhão do Pai e do Filho. Força e sabedoria de Deus, luz e guia de cada passo da nossa história, perfume sem tempo e sem espaço porque abraça a história e habita cada íntimo. O amor de Deus não se fica em si mesmo, comunica-se gratuitamente. Deus dá-se continuamente a cada um de nós. Ele continua vivo, connosco, curando, perdoando e salvando, em cada gesto que fazemos por Ele, com Ele e n’Ele. Deixemo-nos abraçar pela Trindade e continuará presente o Evangelho.
 


Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Creio em Ti, ó Pai, colo fecundo de misericórdia e ternura, onde as minhas raízes bebem o ser,
quero construir-me em Ti, para que o teu amor seja obra em mim.
Creio em Ti, Jesus, Filho Amado e Amante, coração cuja amplitude me dilata o ser,
quero partir de Ti, para que a tua Palavra seja mensagem e profecia em mim.
Creio em Ti, Espírito Santo, liberdade que até aos cumes da beleza me educa o ser
quero focar a minha vida para ti, para que o teu fogo e o teu vento sejam atmosfera em mim.

Viver a Palavra

Vou viver cada um dos meus dias em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

sábado, 23 de maio de 2015

Pentecostes B


Evangelho segundo S. João 15, 26-27; 16, 12-15
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quando vier o Paráclito, que Eu vos enviarei de junto do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, Ele dará testemunho de Mim. E vós também dareis testemunho, porque estais comigo desde o princípio. Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis suportar por agora. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos conduzirá à verdade plena, porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que há-de vir. Ele Me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso vos disse que receberá do que é meu e vo-lo anunciará.»

Caros amigos e amigas, o Pentecostes é como a celebração do nosso aniversário natalício. É daqui que a Igreja se encaminha para o projecto de Deus, é aqui que cada um de nós bebe a vida plena, a Vida de e em Deus.

Interpelações da Palavra
Ele dará testemunho de Mim
Continuamos no contexto da última ceia, em que Jesus abre o escrínio do seu coração, como nunca o fizera. Como era possível que os seus amigos pudessem absorver a torrente daquela mensagem de amor? Mas Jesus também não pretende fazer deles uma espécie de “enciclopédias evangélicas”, compêndios de conceitos sobre a fé. Jesus sabe que eles não podem “suportar” porque numa concha não cabe a imensidão do mar! Jesus quer antes fazer deles “meteoros evangélicos” capazes de iluminar, de deixar rastos de luz, de incendiar com o seu amor a terra inteira. É na Ceia em que Jesus faz o seu testamento de amor, que surge a promessa do Espírito Santo. Ele não age como uma força imposta, que faz de nós marionetas passivas. Só Ele, que procede do Pai, que é bombeado pelo coração do Filho amado, conhece tudo o que se passa no âmago da Trindade, por isso Ele é a corrente a carregar a bateria poderosa que mantém operacional em nós o bem, a beleza, a criatividade e a compaixão. Como em Maria, é o Espírito Santo que fecunda o nosso coração para gerar Cristo e o “dar à luz”. Cabe-nos a abertura para O acolher e a disponibilidade para O deixar agir em nós e por nós. Passamos então a ser não apenas de Jesus, mas rosto de Jesus, beleza, gestos, voz e palavra de Jesus.

E vós também dareis testemunho…
Às vezes gostaríamos de ter o nosso pecúlio privado de inspiração disponível para os nossos discernimentos, o nosso Espírito Santo doméstico, como as crianças, na feira, que trazem os seus balõezinhos coloridos presos às mãos por um fio. Mas o Pentecostes é a nuvem teofânica que não cabe nas dimensões tacanhas do nosso balãozinho, mas que dilata as medidas do nosso coração até abarcar o mundo inteiro, cada homem e mulher, para os revelar destinatários de um amor incrivelmente gratuito e tão desperdiçado. O Espírito Santo implica o nosso ser Igreja, é Ele o alimento da comunhão e esta comunhão expressa o uníssono da verdade. Ele não é de acesso privado, mas visita o mundo em línguas apenas lidas num contexto inteligível. Cada um de nós é uma palavra do poema de Deus, cada um de nós é uma nota da melodia que Deus executa neste mundo. Ele é a conduta íntima que nos liga à fonte, por isso não deixa arrefecer o nosso amor, solta os diques da nossa timidez, revigora a nossa fragilidade, abastece a nossa exiguidade de horizontes, é o diapasão da verdade.

… porque estais comigo.
O Pentecostes é o habitat natural do cristão que se assume como tal e procura desenvolver e manter a sua vida em Cristo. Ninguém pode testemunhar o que não viu, nem ouviu, o que não experimentou. Este ESTAR nem por sombras é verbo passivo. Estar com Cristo não é pieguice devocional, estática e ociosa. Estar com Ele também é permanecer debaixo do caudal do seu coração e do seu olhar, para O conhecer, para deixar-se amar, para deixar-se (re)criar, mas depois para O seguir até àqueles “locais” onde Ele nos quiser enviar. Estar com Ele é permanecer onde Ele continua a caminhar, continua a abençoar, a curar, a amar. O “com Cristo” torna o verbo ESTAR explosivo e diligente… urgente! Estar com Ele, amigos e amigas, faz-nos entrar na sua dinâmica do dom, do arriscar a vida como investimento de amor, do assumir-se como vivo Evangelho!
 


Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Espírito Santo, testemunho da vida, força da Palavra e presença eterna do amor,
inebria-me com a beleza do Teu fogo renovador que me faz discípulo missionário,
Testemunho vivo das mãos de Deus re-criador. Tu, verdade única e plena,
diálogo perene do tempo de Deus e guia criativo da história, fortalece-me
com teus sábios e consoladores dons que me conduzem da disponibilidade ao anúncio.

Viver a Palavra

Vou abrir o coração aos dons do Espírito Santo que me fazem testemunha do reino de amor.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Domingo da Ascensão B


Evangelho segundo S. Marcos 16, 15-20
Naquele tempo, Jesus apareceu aos Onze e disse-lhes: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado. Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados». E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus. Eles partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.

Caros amigos e amigas, hoje, Domingo da Ascensão do Senhor, as palavras de Jesus são-nos directamente dirigidas. Enquanto nos envia é elevado ao Céu, no entanto, este é um envio de Quem não nos pode abandonar. Ele continua a colaborar connosco. É tempo de sair, pregando o Evangelho a toda a criatura.

Interpelações da Palavra

Pregai o Evangelho
Jesus dirige-se aos Onze com um imperativo urgente: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura”. A boa notícia não pode ficar encerrada no interior do pequeno grupo, toda a criatura carece da “melhor notícia”. O que Ele disse e fez transformou os discípulos e quer agora fecundar o coração de toda a criatura, para que viva em plenitude. O Evangelho, Cristo Palavra, tirou-lhes o medo, fez-lhes sentir a Sua misericórdia, ajudou-os a viver o perdão, a proximidade e a atenção aos mais pobres, aos doentes aos últimos. A notícia de um Deus assim é uma graça: é urgente pregá-la. Ele não cancela a sua presença por causa de qualquer crise, greve ou boicote, mas precisa dos nossos lábios, dos nossos pés e das nossas mãos para que a sua Palavra seja notícia nesta cultura moderna, no hoje e aqui da nossa história.

Acompanhados por sinais
Os que acreditam tornam-se discípulos-missionários da “Boa Notícia”, são um sinal do Reino e transportam o perfume da caridade, da sabedoria e da coragem. Quem anuncia a Palavra, quem vive dela e a semeia no coração de toda a criatura, é já sinal de que Deus nunca nos abandona: “Eu estarei convosco até ao fim dos tempos”. Precisamos de estar atentos aos sinais, não temer os perigos da evangelização, mas arriscar o anúncio credível do amor. Somos peregrinos na esperança, a nossa vida é sempre uma “expectação”, “não deixemos que nos roubem a esperança”! Quando a esperança se apaga, paramos, não crescemos nem damos fruto, destruímo-nos e destruímos os outros. Há sempre uma Palavra de amor a semear. Há sempre um raio de esperança, um sinal de Deus, uma notícia de Deus…

Divino cooperador
“Foi elevado ao Céu e sentou-se à direita de Deus.” Eis a nossa bandeira, hasteada como sinal de comunhão, alegria, paz e vida. Jesus é vida, é a notícia de um Pai que nos ama e nunca nos deixa sós. Nunca deixemos de olhar o alto, de aspirar a ser mais e melhor, olhando e levantando a “bandeira” que vai à nossa frente, que nos acompanha, que coopera connosco. Todos somos responsáveis na messe do Senhor, todos somos enviados a pregar o Evangelho da misericórdia, em todo o lugar e a todas as criaturas, mas Jesus continuará a ser sempre o Mestre, o guia, o divino cooperador. A Sua presença constante encoraja-nos e inspira as nossas palavras e ações, para que sejam cada vez mais as Dele. Nem as serpentes da mentira, nem as limitações da doença, nem a solidão do deserto, nem a sede nem a fome de liberdade, nem os demónios das dúvidas e perseguições hão-de deter a força da evangelização que o Espírito Santo é o propulsor. Que os olhos do nosso coração se deixem fascinar pelos milagres que acompanham aqueles que se deixam acompanhar por Ele e lançar as sementes da Boa Notícia. É assim que, hoje e sempre, acontece o Evangelho!

Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Senhor Jesus, hoje é dia de subir contigo. Tu estás onde o meu coração encontra plenitude,
Tu chamas-me sempre a mais, estás onde posso crescer, onde o acreditar se faz envio.
De novo me convidas a estar contigo, de novo me impeles a partir de Ti e em teu nome…
Hoje é dia de sentir nos pés o afago dos caminhos da humanidade, para te estender como Caminho,
Hoje é dia de encher as mãos com a tua misericórdia para regar os desertos de tanta falta de paz,
Hoje é o dia de abastecer a minha voz com a Tua Palavra, é o dia de acordar o milagre da tua presença!

Viver a Palavra

Vou procurar partir sempre de Jesus, para ser sinal do seu amor, a quantos me rodeiam.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

I Domingo Quaresma B


Evangelho segundo S. Marcos 1, 12-15
Naquele tempo, o Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto. Jesus esteve no deserto quarenta dias e era tentado por Satanás. Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-n’O. Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a pregar o Evangelho, dizendo: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».

Caros amigos e amigas, em poucas linhas o Evangelista Marcos traça-nos o início da missão de Jesus. Aquela Palavra de amor e o enlevo que, no baptismo, o Pai colocara no Filho Amado é semeado num deserto. E afinal o deserto é fecundo: o amor germina, cumpre-se o tempo e o Evangelho brota!

Interpelações da Palavra
O Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto
Tinha ido ao Jordão para ser baptizado e depois viera aquela declaração de amor do Pai em que lhe dissera ser o Filho amado! Ficara cheio do Espírito Santo, porque o Espírito Santo é o puro amor entre o Pai e o Filho. Então a ida ao deserto flui deste encontro, é a continuação de um diálogo iniciado de recíproco amor. Este “impeliu” não tem nada de forçado, tem todo a ver com uma sedução, com uma condução… como o Senhor conduz Israel ao deserto para falar-lhe ao coração (Oseias, 2). Só no espaço imenso de um deserto, cabe o diálogo de um imenso amor. O deserto é o crisol dos santos. Ali onde o céu e a terra têm a mesma cor indistinta, e as paisagens se fundem Ele exercitará a atenção para entender o amadurecimento dos tempos, saber interpretar os brilhos dos olhares e os sinais dos rostos de quantos com Ele se cruzarem. Ali, onde o silêncio é plano, ele aprenderá a escutar os gemidos mais calcados e os gritos mais íntimos. Onde não há nada para ver e nada para ouvir Ele afinará a visão e a escuta. Precisamos de ir ao deserto com Jesus para curar todas as distrações que nos bloqueiam a visão e a escuta! Precisamos tanto de aprender a ver e a escutar!

Quarenta dias…
Quão caro era ao povo de Israel no número 40! Número jogado pelos grandes profetas, nas mais sonantes datas da sua história. Novamente o deserto, novamente quarenta dias, prenúncio de uma nova história recontada pela fidelidade do Filho amado. Em Jesus tudo começa, o mundo novo está a surgir. Aquele mundo que Isaías prenunciava, de uma convivência pacífica entre os seres da criação, cumpre-se em Jesus. A nova criação! Jesus, que era tentado por Satanás, vence a tentação pela sua fidelidade. Vivendo entre animais selvagens e anjos, Ele tudo reconcilia. Nesta quaresma que iniciamos, um novo quarenta nos pede a mesma fidelidade do Filho Amado. Entre feras e anjos, entre tentações e graças, toca-nos realizar a reconciliação em que tudo aquilo que guerreia a nossa visão e a nossa escuta deve submeter-se à Palavra que salva.

Cumpriu-se o tempo
“Cumpriu-se o tempo” faz-nos lembrar o termo de uma gestação. O tempo de Deus é fecundo! E o tempo de Deus é agora. Não atiremos para um futuro impreciso a promessa de que Deus está connosco, não adiemos a alegria de lhe dizer sim, não protelemos a centelha de salvação, incubada na força da consagração baptismal. Cabe-nos encontrar Deus no cerne deste tempo que nos envolve, aqui e agora, e acabaremos por perceber que o velho vício de reinarmos nós destoa com este tempo novo, favorável, em que Deus está connosco!
Arrepender-se tem a ver com essa passagem pelo deserto, o deserto da renúncia, mas sobretudo o deserto da atenção; o deserto do silêncio, mas sobretudo o deserto da escuta. Então o arrependimento que Jesus nos pede será esse tempo de gestação em que deixamos que a Palavra de Deus seja o critério das nossas vidas e acabe por emanar delas próprias. Porque o acreditar no Evangelho é tornar-se Evangelho!

Rezar a Palavra e contemplar o Mistério

Senhor Jesus, peregrino do deserto, leva-me contigo neste tempo de graça:
Ensina-me a sedução pelo Espírito que impele, inspira e desinstala, em cada descoberta,
Ensina-me os sinais dos tempos e do tempo, no discernimento das tentações permanentes,
Ensina-me a entrega missionária, na denúncia do erro e no anúncio da verdade,
Ensina-me a reconciliar tudo o que me envolve, no abraço da tua paz.
Senhor Jesus, leva-me contigo na areia do meu deserto, atrai-me na brisa dos encantos…
Senhor Jesus, habitante do meu deserto, ensina-me a acreditar no Evangelho!

Viver a Palavra

Vou arriscar um tempo de deserto com o Senhor e descobrir que tentações mais me seduzem.

sábado, 7 de junho de 2014

Pentecostes A



Evangelho segundo S. João 20, 19-23
Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».

Caros amigos e amigas, o dom do Espírito, à semelhança dos apóstolos, faz germinar em nós sementes de ressurreição abrindo caminhos novos de paz e de esperança.

Interpelações da Palavra

Na tarde daquele dia veio Jesus
Sim, assim sem avisos nem cortejos celestes. Ninguém o chamara ou feito uma súplica dirigida aos céus. Mas, esta é a beleza do Ressuscitado: discreto apresenta-se no coração da situação de tristeza e medo dos amigos. Ainda hoje é Ele que vem ao nosso encontro, mesmo quando não lhe acenamos ou lhe repetimos orações. Vem como segredo dos nossos segredos, amor de cada amor, alma da nossa vida! Sim, Ele vem e, no íntimo do nosso cenáculo, mostra o alfabeto das chagas, aquela gramática indestrutível de amor, oferecendo a sua paz. O Espírito de Cristo é a nossa língua materna, aquele murmúrio simples e de paz que todo o coração anseia.

Recebei o Espírito Santo
Cristo sopra sobre a alegria dos apóstolos e, de repente, a casa enche-se de vento. Até parece que as brasas adormecidas da última ceia, mediante o sopro do Espírito, pegam novamente fogo, capazes de abrasar a terra inteira. Pentecostes é a Páscoa que se incendeia! Agora os discípulos já não têm medo, saem para fora, ao encontro de todos, numa folia de universalidade. Desde esse dia, o lugar do cristão nunca é aquele espaço fechado da sacristia, mas é estar fora e em movimento: ide, libertai, perdoai, tudo e todos! O Espírito de Jesus cria estradas de proximidade, abre portas, reacende o ardor do coração, renova a confiança.
O Espírito é um sopro, um respiro sinónimo de vida, vento misterioso que enche as velas da nossa vida para a conduzir a outros mares. É como um incansável ar de primavera que transporta o pólen das flores e as sementes das plantas para que a vida se estenda ao longe. É a brisa que sopra no jardim do nosso coração para que os perfumes de Deus sejam exalados.

O nascimento da nova criação
Na criação, Deus insuflou na argila o seu respiro e deu vida ao homem. O Sopro divino faz nascer, dá vida. Agora, o Sopro, qual bálsamo da ressurreição, é o respiro de um mundo novo, de uma criação nova, de uma humanidade reavivada! O Espírito Santo é o suave beijo divino, o perfume do amor, a respiração de Deus. Por isso, o Pentecostes é uma contínua criação, uma poesia criativa, um desejo de fecundidade.
O Espírito dá aos apóstolos a fantasia da missão, a emoção dos primeiros passos, a inspiração, a imaginação e a genialidade, que permite a novidade do perdão e a ternura do amor. Quem recebe o Espírito não pode não perdoar, não pode não abater vedações e fronteiras, não pode não deixar de abrir o coração.
No Evangelho nada se diz da presença de Maria. Contudo, acredito que, com os cabelos já grisalhos e junto dos apóstolos, Ela sorria serenamente como se já conhecesse o rosto e o modo de agir do Espírito. No seu íntimo tinha experimentado a sua presença e tinha visto dissipar-se, no silêncio, todas as perplexidades. Ela bem sabia que a semente colocada por Deus no coração dos apóstolos trazia dentro de si a força para desabrochar e dar vida. E isso, caros amigos e amigas, é Evangelho!


Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Vem, Espírito Santo, suave distúrbio da tristeza e do medo, Tu reinventas a alegria!
Tu és o hálito incandescente do Ressuscitado, a corrente de ar que resfria a inação,
Tu és a semente da ousadia, o vendaval da ternura, o ósculo da divina Presença!
Ainda que não te chame… vem, desejo-te nesta dor de não saber amar o Amor…
Vem, trespassa-me com a espada do perdão, embriaga-me com as ânsias da paz.
Ó artífice do ser, prepara-me com a beleza que suporta o divino sopro de vida.
Vem, Espírito Santo, ensinar-me a modular o sim que explode todas fronteiras!

Viver a Palavra

Vou implorar a graça do Espírito Santo sobre os meus medos e derrotas e abrir-me à sua graça.

sábado, 31 de maio de 2014

Ascensão A



Evangelho segundo S. Mateus 28, 16-20
Naquele tempo, os onze discípulos partiram para a Galileia, em direcção ao monte que Jesus lhes indicara. Quando O viram, adoraram-n’O; mas alguns ainda duvidaram. Jesus aproximou-Se e disse-lhes: «Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide e ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei. Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».

Caros amigos e amigas, hoje dia da Ascensão, Jesus subiu ao céu. Suba também com Ele o nosso coração, para que estando ainda na terra possamos já descansar com Cristo no céu (Sto. Agostinho).

Interpelações da Palavra
Recomeçar da Galileia
Os discípulos partem para a Galileia, o lugar do encontro e do enamoramento onde tudo tinha começado: ali eles tinham lido no olhar de Jesus as rotas da plenitude e, deixando tudo, seguiram-No. Agora, Jesus fixa novo encontro neste lugar da vida e do amor primeiro, e não em Jerusalém onde o sonho parecia ter terminado. Ele bem sabe que as dúvidas e os medos daqueles homens com o coração amargurado são também as nossas. Por isso, mesmo no lugar mais distante, Deus continua a tocar apaixonadamente as periferias da nossa vida. E, se Jesus regressa ao Pai, leva todavia consigo a cor da nossa terra, as feridas contraídas por amor nas mãos, nos pés e no coração, o sabor dos nossos beijos, os de afecto e os de traição, o desejo ardente de estar sempre connosco… por isso Ele faz entrar na casa do Pai a nossa humanidade!
Jesus não partiu para uma região geográfica desconhecida, mas foi para o mais profundo do nosso coração, aquele lugar que nos leva a sair da nossa prisão egoística, rumo àquele amor que abraça o universo.

Ide, ensinai, baptizai… todas as nações!
Imagino a cara dos discípulos diante da imensa surpresa da missão. Apesar das suas fragilidades e contradições, Jesus oferece-lhes uma confiança nova, intacta e envia-os pelos caminhos da vida e da humanidade, até às fronteiras mais distantes da terra. O milagre do Evangelho é, então, prodigamente semeado nas sílabas da voz humana e nas frágeis mãos de cada pessoa.
Ainda hoje Deus convida a ir, a sair, a mergulhar na vida e no amor, sem que a nossa fragilidade O detenha. Ele sabe que a sua palavra é semente nova na nossa terra árida, fermento capaz de se deixar activar pelo Espírito.
Sim, ir e sair pois só saindo encontraremos a vida que nos precede! Só mergulhando descobriremos o oceano de amor! Só caminhando alcançaremos a terra prometida e o irmão, o lugar onde Deus se pode encontrar.

Eu estou sempre convosco
No fim do Evangelho descobrimos que a promessa inicial de Deus – ser o Emanuel, o Deus connosco – se mantém. Ele não se satisfaz com visitas fortuitas, mas promete estar presente todos os dias, dia após dia, de luz e de trevas, de presença e de silêncio. Jesus não assegura coisas, riquezas, comodismos; afiança antes uma relação e uma companhia: Eu estou sempre convosco! Nunca mais estaremos sós. Nunca mais um Deus distante, separado, esquecido no alto dos céus, mas sim amassado com a humanidade. Céu e terra reproduzidos, multiplicados e engendrados juntos.
Desta união, o homem sairá recoberto de céu, porque o Filho se revestiu da humanidade. Em Jesus as realidades celestes beijaram a terra e as terrestres foram elevadas à intimidade de Deus. Maravilhosa missão que nos é confiada: criar laços com a eternidade, enamorar-se do céu, ser escada do paraíso, anunciar uma verticalidade de esperança aos caídos na fragilidade. A missão é salvar um pedaço do céu na nossa vida e fazer nascer uma semente de éden no coração da humanidade.

Ainda hoje, Deus mete os seus passos nas nossas pegadas. Basta subir e descer a humanidade de Cristo para encontrar a bênção de Deus. E isso, caros amigos e amigas, é Evangelho!

Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Senhor, novamente marcas encontro para acender no meu olhar apagado, o fogo do teu Espírito!
És um Deus que não encerra a minha história de infidelidade, tu reabilitas em mim a confiança.
Maravilha-me que, mais uma vez, confies nas minhas mãos egoístas e nos meus pés indecisos,
que me incumbas de ser mensagem tua, roteiro da tua presença, expressão do teu amor.
Assumes o meu presente com a tua presença. Tu envias-me: não toleres que adormeça em mim,
quero percorrer contigo as estradas, ensina-me o poder do amor, a ser presença, a buscar e a ser céu.

Viver a Palavra

Vou dar razões da esperança a todos os que se cruzarem com a minha vida.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

VI Domingo Páscoa A



Evangelho segundo S. João 14, 15-21
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos. E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Paráclito, para estar sempre convosco: Ele é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece, mas que vós conheceis, porque habita convosco e está em vós. Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós. Daqui a pouco o mundo já não Me verá, mas vós ver-Me-eis, porque Eu vivo e vós vivereis. Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai e que vós estais em Mim e Eu em vós. Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre, esse realmente Me ama. E quem Me ama será amado por meu Pai, e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».

Caros amigos e amigas, as palavras do Evangelho de hoje são para saborear pacientemente no coração. Jesus tem uma única preocupação: amar! O amor faz de nós alguém: filhos e irmãos.

Interpelações da Palavra

“Se me amardes guardareis os meus mandamentos”
Como é estranho aos nossos ouvidos este discurso de Jesus! Sim, naquele “se” tão pequeno e frágil, respeitoso da liberdade, paciente e confiante, Jesus não ameaça nem obriga, apenas convida. O amor é dom e escolha! O Mestre não está preocupado em descrever o conteúdo dos mandamentos, nem em elencar um decálogo, desafia antes a fazer da vida uma parábola de amor e comunhão. Se em cada gesto e em cada palavra houver uma semente de amor então as mesmas ganham um ardor novo, uma beleza impensável, fazem vibrar a vida. Amar transforma a vida, perdoa os inimigos, abraça os humildes, renova os condenados, seca as lágrimas, põe o coração a arder, abre ao infinito! Sim, se amares sentirás o pulsar do coração de Deus em ti!

“Paráclito e Espírito de verdade”
Nos julgamentos hebraicos, quando era pronunciada uma sentença, acontecia por vezes que um homem de boa reputação incontestada colocar-se junto do acusado defendo assim a sua causa. A esta pessoa chamava-se o “paráclito”. Este testemunho silencioso e convincente confundia os acusadores. No Evangelho encontramos também Jesus como paráclito da mulher acusada de adultério que, em silêncio, escreve com o dedo no chão. Agora, pede ao Pai para enviar outro paráclito que, discretamente, está junto de nós, como testemunha silenciosa da verdade. O Espírito é assim o dedo de Deus que, ainda hoje, escreve sobre o pó do nosso coração as palavras de uma aliança nova. É Ele que grava na nossa vida um amor total que nunca poderá ser esquecido. É o Espírito que consola, exorta, encoraja, está ao nosso lado, dá alegria à vida.
O Espírito Santo recorda-nos as palavras de Jesus de que não estamos sós, faz-nos penetrar no mistério divino abrindo-nos a inteligência e o coração. O Espírito é como uma música que ressoa na história, em todos os tempos e em cada pessoa, abrindo para horizontes nunca antes explorados. Ele é a harmonia que faz bela a vida.

“Não vos deixarei órfãos”
Como são consoladoras as palavras de Jesus que nos recordam a identidade de filhos! Estar no Pai, estar com quem se ama, é não morrer de solidão, abandonado ou esquecido. A Igreja, casa da família, não é um lugar para os órfãos ou para os sem-abrigo. Ali vive-se e procura-se viver o sonho de Deus: que ninguém seja só, mas unido e habitado pela sua presença de amor. Porque o amor faz-se sempre densidade de presença para o amado, faz-se morada e alimento.

A presença de Deus não se conquista, não se compra, não está longe. Acolhe-se dentro, naquele lugar onde o Espírito sussurra repetidamente no nosso coração: “Abbá – Pai”. E isso, caros amigos e amigas, é Evangelho!

Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Senhor, no cinzento aflitivo do medo, na secura egoísta do hoje, não estou só.
Senhor, na mentira intoxicante da competição, na rota incompreendida de cada ser, não estou só.
Senhor, na teimosia da solidão disfarçada, no silêncio gritante da dor, não estou só.
Não estou só, Senhor, porque me amas, me acompanhas e lanças sobre mim o Espírito de Paz.
Não estou só, Senhor, porque me amas, me conheces e convidas ao amor, no Espírito de luz.
Não estou só, Senhor, porque me amas e me presenteias com a luz de cada dia!

Viver a Palavra

Vou ser instrumento de paz, eco do Espírito Santo em cada irmão que se sinta só.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Batismo do Senhor - A



Evangelho segundo S. Mateus 3, 13-17
Naquele tempo, Jesus chegou da Galileia e veio ter com João Baptista ao Jordão, para ser baptizado por ele. Mas João opunha-se, dizendo: «Eu é que preciso de ser baptizado por Ti e Tu vens ter comigo?». Jesus respondeu-lhe: «Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça». João deixou então que Ele Se aproximasse. Logo que Jesus foi baptizado, saiu da água. Então, abriram-se os céus e Jesus viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e pousar sobre Ele. E uma voz vinda do céu dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência».

Caros amigos e amigas, na festa que hoje celebramos reside uma esperança imensa: a certeza de que nada nem ninguém poderá mais fechar este céu que a fidelidade do Filho amado abriu, nem calar esta voz que, para sempre, nos declarará o seu amor.

Interpelações da Palavra
Veio ter com João Baptista
Estremeço!!! Na fila daqueles que caminham, carregados com a consciência dos seus pecados, vejo divisar-se a figura d’Ele, o Cordeiro sem pecado e sem mancha! Como é possível que venha ter comigo a Palavra de Quem eu sou a voz, o Caminho, para quem eu preparei o caminho, o Fogo no qual acendo a chama da minha mensagem? Aproxima-se como fagulha de luz, a insinuar-se nas trevas. Dou-me conta que um tempo novo se inaugura na relação dos seres humanos com Deus. Hoje vejo, de olhos deslumbrados, Deus a imergir na sua obra. Comovo-me ao contemplar o divino Oleiro de mãos empapadas com o barro onde insuflou a vida. Ali está Aquele que vem ensinar-nos o caminho do arrependimento, mas nele não nos deixa sós. Deus faz marcha com este povo que se liberta do mal, caminha com a imperfeição que ruma para beleza. Sou eu que quero receber d’Ele a graça regeneradora do perdão, mas é Ele me pede primeiro o caminho desimpedido para chegar a mim. Deixo-O vir… a água que eu derramar sobre Ele escorrerá como bênção para o mundo!

Abriram-se os céus
Os céus tantas vezes nos apareceram como véu intransponível que se interpunha entre nós, criaturas, e o Deus longínquo e inacessível… Não foi preciso que tivéssemos de perturbar o silêncio sideral; os céus rasgaram-se espontaneamente pois o Filho amado veio habitar o nosso chão e chamou todo o céu para esta terra que flore o próprio amor de Deus. Este chão agora é o céu. Por Jesus deu-se uma punção no véu que toldava os olhares. Nada mais se interporá entre o cúmplice olhar e o amoroso diálogo de Deus e das suas criaturas. Esta brecha é prenúncio daquela outra, feita no Coração de Cristo, o único lar que demandamos. A todos nos é possível penetrar no Santuário, no segredo de Deus, na torrente das suas delícias. Os ladrões do céu terão este encorajamento para arriscar! É preciso dar aos pobres esta estupenda notícia!!!

O Filho muito amado
Sobre o movimento do oceano da fidelidade do Filho dança o Espírito de Deus. A nova humanidade surgirá nesta carne preparada pela docilidade do Filho amado. Olho Jesus que sai da água, como o eclodir de uma nova criação. Jesus semeou na nossa humanidade aquela amabilidade que atrai o olhar enlevado de Deus. Só Jesus é absolutamente o Filho Amado, mas aqueles que O escutam e participam da sua fidelidade, tornam-se um com Ele e, por isso, estão aptos a escutar do Pai aquela mesma declaração de amor. É aqui, neste rio das minhas procuras, que O deixarei imergir; é aqui de entre as nuvens soturnas das minhas dúvidas que consentirei o golpear de uma voz; é aqui, no contexto da minha infidelidade, da minha fragilidade que se quer levantar, que permitirei que Ele vá fazendo progredir a doce narração do Evangelho!

Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Pai amoroso, abres os tempos com a Tua Palavra Criadora,
Abre o meu querer ao teu amor criativo, para que consita recriar-me da tua Palavra.
Filho amado, dás esperança àqueles que superam o conforto da passividade,
Que participe na tua fidelidade que, aqui e agora, é moção dos novos céus e nova terra,
Espírito de amor, fecundas a alegria de quem ousa caminhar ao teu ritmo
Torna o meu coração apto para acolher e deixar vibrar a declaração de amor do Pai.
Trindade Santíssima, adoro-vos e entrego-me ao vosso amoroso desígnio.

Viver a Palavra

Vou considerar o dom da minha vocação baptismal como um chamamento amoroso de Deus Trindade.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Santíssima Trindade C



Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade plena; porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que está para vir. Ele Me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso vos disse que Ele receberá do que é meu e vo-lo anunciará».

Caros amigos e amigas, a festa de hoje fala de um Deus que é comunhão, relação, família: Pai, Filho e Espírito são os três protagonistas do único rosto de Deus. Este grande mistério do amor, sem termos a pretensão de o dominar ou explicar, é para acolher amorosamente.

Deus é família
Para uns, Deus é simplesmente algo de misterioso e sobrenatural. Para outros, é um velhote de barbas brancas sentado à janela do paraíso, distante e isolado do nosso mundo, quase um sem abrigo e sem família, que pede ao homem para o fazer sair da sua eterna solidão. Para outros ainda, é uma ilógica equação matemática (1+1+1=1). Porém, Deus não é uma definição, mas é vida, caminho, experiência. Deus não se explica, mas ama-se, reza-se, experimenta-se, porque “quanto mais se navega em Deus, novos mares se descobrem” (De Leon).
Deus não é um abismo de solidão, mas é amor que não se fecha no segredo dos deuses. Deus é festa, família, dança, relação, dom. Por Jesus sabemos que o único rosto de Deus, o verbo amar, se declina em três pessoas. São três pessoas que se amam totalmente que, nós de fora, vemos apenas um, como se fosse um oceano de amor. Cada pessoa desaparece na outra. Só quando nos aproximamos é que experimentamos a diferença do Pai, do Filho e do Espírito.
Deus é comunidade de vida e de amor de pessoas, que vivem e convivem, existem e subsistem eternamente na doação recíproca e voluntária, numa comunhão perfeita e plena de vida e amor. Deus é, ao mesmo tempo, em si mesmo, Aquele que ama, o Amado e o Amor.

Paradoxo do amor
O amor tem uma aparente contradição: por amor, cada pessoa se dá e se perde, para se encontrar e realizar na outra pessoa. Deus Pai “esquece-se” e desaparece da sua glória divina para aparecer na fragilidade humana do Filho. O Filho “esquece-se” de si, na fragilidade de um Amor que se aniquilou até à Cruz, tal era o “fraquinho” do Amor de Deus por nós, para revelar o Pai. O Espírito “esquece-se” de si e esconde-se na brisa, para abraçar o Pai e o Filho.
Este é também o modo de ser de Deus para connosco: Ele morre para nos fazer viver; Ele apaga-se para nos fazer brilhar; Ele diminui-se para nos engrandecer; Ele oculta-se para nos fazer aparecer; Ele parte para nos dar o lugar; Ele afasta-se para nos responsabilizar. De Deus aprenderemos sempre a viver com os outros, para os outros e graças aos outros. É isso viver na comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

A dança do amor é sempre plural
O amor nunca é exclusivo, mas é sempre sem medida, ilimitado, multiplicativo. Amar é viver de Deus! É viver daquela relação que nos amou primeiro.
Ensinar a arte do amor, mostrar como o evangelho se torna vida, aprender que as pessoas não vivem sem as outras, ou contra as outras, ou acima das outras, mas que vivem com as outras, para as outras, vivificadas nas outras, é iniciar a compreender o mistério trinitário da família divina.
Caros amigos e amigas, vivei o amor, ensinai a amar, assim como se ensina uma arte que se conhece, uma estrada que abre novos horizontes, algo que já todos aprendemos porque já o recebemos de Deus. E isto é viver e ensinar o Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Quero aprender, viver e ensinar a divina arte de amar com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

REZAR A PALAVRA
Visita ó Pai a minha orfandade com a tua paternidade.
Visita ó Jesus o meu isolamento com a tua fraternidade.
Visita-me ó “Sopro de Deus” com a tua amizade.
E que, em ti ó Pai, eu encontre a fonte da vida; em Cristo, o amor para caminhar.
E, no Espírito, incendeia de comunhão a minha solidão.
Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo,

como era no princípio, agora e para sempre. Ámen.