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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

II Domingo Comum B


Evangelho segundo S. João 1, 35-42
Naquele tempo, estava João Baptista com dois dos seus discípulos e, vendo Jesus que passava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus». Os dois discípulos ouviram-no dizer aquelas palavras e seguiram Jesus. Entretanto, Jesus voltou-Se; e, ao ver que O seguiam, disse-lhes: «Que procurais?». Eles responderam: «Rabi – que quer dizer ‘Mestre’ – onde moras?». Disse-lhes Jesus: «Vinde ver». Eles foram ver onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Era por volta das quatro horas da tarde. André, irmão de Simão Pedro, foi um dos que ouviram João e seguiram Jesus. Foi procurar primeiro seu irmão Simão e disse-lhe: «Encontrámos o Messias» – que quer dizer ‘Cristo’ –; e levou-o a Jesus. Fitando os olhos nele, Jesus disse-lhe: «Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas» – que quer dizer ‘Pedro’.

Caros amigos e amigas, este delicioso texto traz-nos o encanto que eclode no início de algumas histórias de amor. Quanto nos podemos rever nestes discípulos fascinados pela força de um olhar! Para mim e para ti é hora de regressar àquele momento que conserva intacto o motivo da nossa felicidade: sentir-nos amados por Ele!

Interpelações da Palavra
Cruzamento de olhares
Nesta pequena passagem impressiona o número de vezes que é referido o verbo ver nas mais diversas conjugações. É o olhar atento de João, o olhar ávido dos discípulos, o olhar penetrante de Jesus. Quase sempre é a partir de um olhar, de uma mínima cumplicidade que se desenrolam as mais belas histórias de amor. O olhar é a janela mais generosa do ser, de onde derramamos o que somos e onde entra a primeira letra de qualquer narração. Aquela hora de luz fica registada nos autos mais perenes da nossa memória, quando a fagulha de um olhar nos faz compreender quem somos e para onde estamos chamados. Que bom que João não sofria desse devastador “Alzheimer” espiritual que endurece o coração de cepticismo! Lembrava-se bem dessa hora única na sua vida, esse ponto de fogo! Lembrava-se que fora às quatro da tarde, hora perigosa em que o sol quase tombava nos montes, e o crepúsculo ameaçava trazer as trevas, em que a certeza da luz unicamente se concentrou naquele Rabi que o Baptista anunciara como o “Cordeiro de Deus”.

O desejo de permanecer sob um olhar
À pergunta de Jesus, os discípulos parecem desconversar, respondendo com outra pergunta atrevida, talvez pretexto para uma aproximação mais comprometida. Como se fosse um receio humano a precaver-se da insegurança que um exterior sempre provoca. É ousado, indiscreto mesmo, perguntar a alguém onde mora! É como se nos insinuássemos como hóspedes a alguém. A morada de Jesus corresponde a um espaço de intimidade que afinal os discípulos desejam entrever, participar e… não há descrições cabais, apenas a experiência lhes pode bastar. E sim, Jesus convida-os à experiência da sua morada. E ficaram com Ele nesse dia. Esse dia era a sua vida! Porque é diferente ter uma morada ou tê-Lo a Ele como morada. O que eles desejavam era encontrar esse espaço, íntimo e recatado, onde pudessem permanecer sob o caudal dos Seus olhos. Ali, onde teria origem a alegria, onde regenerariam as forças. Não importava que fosse um telhado ou antes um céu, onde as estrelas ou o sol lhes dissessem segredos; não importava que fossem paredes ou apenas as cores do frio e do calor que os aconchegassem do relento subjugador da arbitrariedade. Era naquele olhar que sentiam um abrigo para a sua insegurança. Era aí que desejavam permanecer!

Testemunhos incendiados
A experiência de Deus não é coisa de guardar em stock. Ela queima por dentro! A experiência de Deus faz-nos explodir de nós mesmos. Neste texto, Jesus é apresentado através de uma cadeia de testemunhos. De João Baptista passa aos discípulos, destes a Pedro… João Evangelista escreve para nós. É maravilhoso pensar que o Nome de Jesus nos foi legado, de boca em boca, através dos séculos e que herdámos, com o Nome, vivências de fé e de santidade sobre as quais caminhamos… porque o discipulado não se consuma enquanto Jesus não nos olha nos olhos para nos revelar o nosso próprio nome! Como André a Pedro, aqui está o grande objectivo da transmissão do nosso testemunho: fazer discípulos de Jesus. A maior expressão de caridade que podemos ter é anunciar a alegria de ter encontrado Jesus e que Ele é o “Cordeiro de Deus!” é sermos perfume e sabor, melodia e cor, textura do Evangelho!

Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Senhor da interpelação, da pergunta e da proposta,
Porque Te procuro, porque me chamas, porque me olhas?
Senhor da interpelação, da pergunta e da proposta: os Teus olhos viram os meus,
tocaram a cor do meu (in)finito, descobriram a minha identidade;
as Tuas palavras disseram o meu nome, questionaram o meu “quem”,
desenharam um sentido de mim; a Tua morada é o espaço do meu seguir,
a meta e a partida, anseio do meu coraçação peregrino. Eis-me aqui…

Viver a Palavra

Vou descobrir sinais da procura de Deus por mim.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

XXII Domingo Comum A


Evangelho segundo S. Mateus 16, 21-27
Naquele tempo, Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. Pedro, tomando-O à parte, começou a contestá-l’O, dizendo: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há-de acontecer!». Jesus voltou-Se para Pedro e disse-lhe: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens». Jesus disse então aos seus discípulos: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Que poderá dar o homem em troca da sua vida? O Filho do homem há-de vir na glória de seu Pai, com os seus Anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras».

Caros amigos e caras amigas, será que podemos censurar gratuitamente Pedro no modo tão humano como reage perante este discurso do Mestre? Coloco-me no lugar dele: ainda hoje me impaciento quando Jesus me acena a Cruz, mesmo já sabendo que a Cruz é fonte de vida! Ainda hoje talvez preferisse um Cristo sem Cruz!

Interpelações da Palavra
Os caminhos de Jerusalém
Várias vezes Jesus fala na sua “Hora” e nesta passagem refere-se a compromissos e a um lugar determinado: Jerusalém. Pelos vistos Jesus tinha uma agenda! A sua agenda de Filho Amado. Pedro não compreende o que pode cativar Jesus para uma caminhada até Jerusalém. Ele só vê a morte, o sofrimento, o desdém, o desprezo, a ingratidão (sem ainda imaginar que faria parte dela!); Jesus, porém, só vê o coração do Pai que pulsa amorosamente pelos seus amados, vê a árvore da vida que no Éden secara pela infidelidade, e precisa de ser regada pela fidelidade, vê o jardim das relações humanas devastado pelo egoísmo, que precisa de ser fecundado por um amor extremo, vê sonhos desfeitos pela desistência que precisam da notícia da esperança…
A partir desta visão, os caminhos de Jerusalém não terão para Jesus o sabor amargo da ansiedade e do medo, mas serão iluminados pelo fulgor da ternura do Pai, a Quem Ele quer totalmente corresponder. Os caminhos de Jerusalém sabem ao mel de um desejo, ao brinde de uma ceia, a um sonho partilhado, a uma carícia de perdão, a um perfume de ressurreição difundido pelo universo. Por isso Ele caminha, não como um irremediável condenado, mas como um libertador que semeia jorros de alegria e esperança à sua passagem.

Pedro começou a contestá-l’O
Certamente que conhecemos esta atitude nos nossos currículos. Propomos a Deus tantas e tão “sábias” alternativas, arquitectadas por uma excessiva preocupação por nós mesmos. Apesar das nossas visões parciais e viciadas não hesitamos em cometer a loucura de dar umas boas dicas a Deus sobre a forma de governar o mundo, sobretudo de nos governar a nós. E, no entanto, esta é a atitude contrária ao ser discípulo. Ao contrário de Maria que “acolhe e pondera no coração” o que não entende, Pedro tenta assumir o lugar do Mestre. Apesar de O ter reconhecido como o Messias, não aceita as consequências da sua caminhada ao lado de Jesus. Só mais tarde entenderá, depois de tomar parte naquela mesma visão de Jesus!

A (i)lógica do perder para ganhar
Perder a vida para a encontrar; ganhar o mundo e perder a vida, não são mais do que os conselhos que Jesus já decalcara no catálogo das bem-aventuranças! É a lógica divina que desfaz a lógica do egoísmo humano.
Admirável negócio este, o da vida, segundo Jesus! O verdadeiro encontro da vida supõe a sua perda. À primeira, isto assusta-nos. Mas em termos práticos isto significa não colocar a enfase em mim, como centro do mundo, significa uma disponibilidade para expor a vida ao risco de ser aceite pelos outros, e isso é, afinal de contas, a sua máxima rentabilização. A vida do discípulo é um investimento que o Criador não desperdiçará ao vazio! Assim, ganhar-perder na perspectiva de Deus passam a ser verbos aliados… verbalizam o Evangelho!

Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Jesus, caminhante sereno nas veredas da Vontade do Pai, semeador nas estradas dos homens,
Quero em Ti focar a beleza do amor e ousar metas de esperança porque Tu és o Caminho.
Jesus, artífice do novo céu e da nova terra, amassados no barro do meu pecado: eis-que aqui!
Contigo quero escutar a vontade do Pai, e confiar-lhe o meu destino porque tu és a Verdade.
Jesus, que te dignas dar a vida por mim, não permitas que a minha apodreça na indiferença:
Contigo quero arrojar-me ao dispêndio de todas as minhas energias, porque Tu és a Vida!

Viver a Palavra

Vou caminhar resolutamente com Jesus, tendo apenas como meta o imenso amor do Pai.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

III Domingo Comum A



Evangelho segundo S. Mateus 5, 12-23
Quando Jesus ouviu dizer que João Baptista fora preso, retirou-Se para a Galileia. Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum, terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali. Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer: «Terra de Zabulão e terra de Neftali, caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte, uma luz se levantou». Desde então, Jesus começou a pregar: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus». Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me, e farei de vós pescadores de homens». Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O. Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu, a consertar as redes. Jesus chamou-os, e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n’O. Depois começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.

Caros amigos e amigas, ainda hoje, Jesus escolhe habitar na Galileia da nossa vida, caminha no nosso mar de trabalhos e preocupações, chama-nos pelo nome e convida-nos a segui-lo. Nada, ninguém, nem nenhuma situação, por mais escura que seja, está longe do olhar e do aproximar-se luminoso de Deus.

Interpelações da Palavra
À beira mar…
Quanta gente, quanto barulho, quanta confusão e promiscuidade, nesta região das periferias, contaminada por estrangeiros e pagãos! Uma Galileia de gente com as mãos corroídas pelo sal e o rosto queimado pelo sol. É aqui que o Reino se aproxima: Jesus passa entre a gente e vê, numa casa de pescadores, a sua Igreja. Esta nasce ali, nas margens dum mar, num lugar de encontros, de partidas e chegadas, num cais de relações, de pessoas, de comunhão. Ainda hoje, a Igreja é o contínuo caminhar de Deus ao encontro do homem.

…um encontro…
Desde sempre se tinham dedicado à pesca que lhes permitia sobreviver. Estavam, por isso, bem familiarizados com as redes, com a humidade da noite, com o imprevisto das ondas, com o mapa das estrelas que o pai, velho lobo do mar, conhecia como a palma da sua mão. E, contudo, bastou um olhar, uma palavra, um encontro para deixarem tudo. Ele não prometera nada: nem redes mais fortes, nem uma vida melhor. Falara apenas de um Reino que se construía com o coração e com fios de esperança. Bastara aquele convite para os jovens irmãos o seguirem. Naquele olhar até os pescadores mais experientes naufragaram! Jesus chama e eles descobrem que dentro de si não há apenas as rotas do lago, mas existe o mapa do céu, do mundo, do coração.
Jesus não rouba a rede remendada, a barca desconchavada ou o pai idoso, mas alarga o coração, faz viver cada momento e cada pessoa com um respiro universal, num oceano de amor sem fronteiras.

…que renova a vida
É sempre Ele que nos avista, nos encontra, nos habita, colocando o amor de Deus ao alcance da mão e do coração. À semelhança de Pedro e André, de Tiago e João, Jesus olha para nós e no nosso mar avista um tesouro, no frio da nossa vida vê o grão que germina, descobre uma generosidade que nós próprios desconhecíamos, uma melodia que ignorávamos, e sussurra estradas de sol, caminhos de alegria. Deus surpreende continuamente!
Quantos pescadores estariam no lago naquele dia? Não sabemos; apenas que Jesus escolhe irmãos! Os primeiros discípulos são companheiros de sangue! Desde o início, o Evangelho é um convite à fraternidade e à comunhão profunda. Os discípulos são gérmen de uma nova família, de uma Igreja de irmãos. Dois a dois! Nunca mais sós!
Ainda hoje, Jesus passa e reacende a vida, deixando um perfume de sonhos e um contagioso desejo de felicidade, semeando um rasto de milagres e de esperanças. E isso, caros amigos e amigas, é Evangelho!

Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Senhor, disposto a lançar as redes sem Ti, a ser eu a consertar,
intercetas o meu movimento isolado e recusas o meu débil solucionar…
Sim, a Tua voz fez estremecer o meu dia, o meu esforço e o meu doar.
O Teu convite sacudiu os meus sonhos, o mapa traçado e o calendário definido.
Sim, a Tua voz abanou o meu barco, a minha casa os meus laços.
O Teu olhar iluminou o meu passado, o meu presente e o meu futuro.
Senhor, lança Tu as redes que tocam os meus braços, conserta Tu as redes que trilham os meus pés
E, porque me convidas a seguir-Te, serei, conTigo, pescador de Homens.

Viver a Palavra

Hoje vou descobrir que redes preciso lançar com Cristo no mar que me envolve.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

XXXI Domingo Comum C



Naquele tempo, Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade. Vivia ali um homem rico chamado Zaqueu, que era chefe de publicanos. Procurava ver quem era Jesus, mas, devido à multidão, não podia vê-l’O, porque era de pequena estatura. Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro, para ver Jesus, que havia de passar por ali. Quando Jesus chegou ao local, olhou para cima e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria. Ao verem isto, todos murmuravam, dizendo: «Foi hospedar-Se em casa dum pecador». Entretanto, Zaqueu apresentou-se ao Senhor, dizendo: «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». Disse-lhe Jesus: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido».
Caros amigos e amigas, Lucas narra hoje o milagre da conversão de Zaqueu que acolhe o eterno abraço da misericórdia de um Deus que entra na sua casa e na sua vida, renovando-a.

Zaqueu
A pequenez de Zaqueu não era apenas uma questão de centímetros. Ele era “cordialmente” odiado por causa da sua profissão: era chefe da alfândega. Neste lugar, através da extorsão, enchia bem os bolsos. Por curiosidade, despindo-se da sua compostura e prestígio, empoleira-se numa árvore, apenas com a pretensão de avizinhar Jesus com o olhar. Para isso, ousa tresmalhar-se do rebanho, destoa do coro dos aplausos da multidão, assume os seus limites e encontra um balcão privilegiado.
Tal como ontem, nunca os limites foram impedimento para encontrar o Senhor. Na verdade, a fragilidade, o pecado, a pequena estatura… Podem até ser motivo de encontro com o Mestre.

Encontro de olhares
Enquanto Zaqueu procura ver Cristo, apercebe-se que é Cristo que o encontra. É Jesus que levanta o olhar para o estranho inquilino do sicómoro e, através daquele “chefe de publicanos”, intui o novo Zaqueu, inédito e surpreendente. Naquele olhar, Zaqueu é náufrago e é acolhido antes de qualquer sonho de hospitalidade, é perdoado antes do arrependimento, é amado antes até de se converter.
Pensamos que somos nós à procura de Deus quando é Ele que anda primeiro à nossa procura. Não é possível ver Jesus sem ser visto e surpreendido por Ele. O Mestre olha para todos nós de baixo, como se fôssemos o sol da sua vida, o único amor a contemplar. Olha-nos com aquele amor que nos conhece pelo nome, capaz de nos fazer descer dos nossos pedestais, sobre os quais tentamos pateticamente de mascarar a pequenez do nosso coração. Não precisamos de fingir diante daquele que se fez pequeno para nos amar, diante daquele que se abaixou para nos encontrar, diante daquele que se ajoelhou para nos ensinar como servir, diante daquele que subiu à árvore fecunda da Cruz para nos salvar.
Se Jesus desce até à casa de um pecador é para fazer subir Zaqueu à sua dignidade. Aliás, nunca foram as ideias ou os propósitos a mudar uma vida, mas sim o encontro e a sedução das pessoas.

“Desce depressa, hoje devo ficar em tua casa”
Naquele “devo” até parece que Deus está em débito com Zaqueu! Desde Belém até à última ceia, é atrevido este Jesus que se auto-convida à mesa da humanidade, mendigando hospitalidade. E pede pressa porque o amor não suporta demoras. As respostas de amor urgem e multiplicam a vida.
Estando em casa, Jesus nada diz, nada pede, nada repreende, nem faz um sermão sobre a penitência e o inferno; à mesa não estraga a refeição com uma reflexão sobre a fome no mundo… E o escândalo é geral. Até Zaqueu está estupefacto mas percebe que o amor gratuito de Deus espera também uma resposta sem cálculos de amor. Daí a excessiva folia do seu testamento: dar metade da sua vida e restituir quatro vezes mais aos prejudicados. Também nós podemos saber onde encontrar o Senhor, podemos até recordar a hora e a árvore, mas durante o encontro os milagres acontecem e não sabemos onde nos poderão conduzir. Aí reside, caros amigos e amigas, a surpresa encantadora do Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Vou aproveitar a hora em que o Senhor passa pela minha vida para O acolher e deixar-me salvar.


REZAR A PALAVRA
Senhor, há um estrado que me alteia e não me deixa sentir o chão da humildade,
 há algo duro dentro de mim e não deixa que a tua Palavra possa ressoar;
há uma paralisia nas minhas mãos que não as deixa livres para florir o dom.
Tudo o que sou, hoje confronta-se com os teus passos soltos, com o teu coração
pleno de amor, com as tuas mãos escancaradas de graça e de dom!
Encontra-me, Senhor! Vê o meu ser disputado por interesses vãos e cura-me.

Quero ver-te e descer de mim e subir e vazar-me e florir e viver... em/por Ti!

quinta-feira, 27 de junho de 2013

XIII Domingo Comum C



Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo, Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de Lhe prepararem hospedagem. Mas aquela gente não O quis receber, porque ia a caminho de Jerusalém. Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus: «Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?». Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os. E seguiram para outra povoação. Pelo caminho, alguém disse a Jesus: «Seguir-Te-ei para onde quer que fores». Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça». Depois disse a outro: «Segue-Me». Ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai». Disse-lhe Jesus: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, vai anunciar o reino de Deus». Disse-Lhe ainda outro: «Seguir-Te-ei, Senhor; mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família». Jesus respondeu-lhe: «Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus».

Caros amigos e amigas, o evangelho de Lucas narra a decisão de Jesus em seguir viagem até Jerusalém. É uma extraordinária e exigente aventura, jamais solitária, mas feita de encontros.

Jesus decide seguir para Jerusalém
Daqui em diante o evangelho não será apenas uma palavra que se escuta, mas um caminho a fazer, atrás de Jesus. É uma estrada a percorrer atrás daquela firme decisão de ir até à Cruz. É uma via que enriquece não de coisas, ninhos ou tocas, mas de oportunidades, horizontes de luz, encontros…
Os discípulos pouco habituados à estrada tiveram de converter-se e pôr-se a caminho. Havia quem fosse pescador, quem passasse o dia sentado na banca dos impostos, quem estivesse parado debaixo da figueira, até quem tramasse contra os romanos. Também nós somos peregrinos da vida sem fronteiras, a caminho de cada pessoa, peregrinos do coração. “O cristão é o peregrino sem estrada, mas constantemente a caminho” (S. João da Cruz).
Habitar a estrada e abraçar a própria vida, com as suas incongruências, é saber que a vida não é uma teoria mas um caminho, é viver uma fé não em palavras mas amassada pelo pó e pelas paisagens dos rostos que nos habitam, é aceitar viver a sua parte de cruz no dia-a-dia.

“Queres que mandemos descer fogo do céu?”
Como Tiago e João não basta fazer uma bela experiência de fé para ter um coração convertido, nem é suficiente uma intensa vida de oração para não cair no risco do fanatismo e da intolerância. A vida e a fé não são um longo rio tranquilo. A estrada é feita também de intolerâncias e intransigências, ameaças de fogo e chamas, vontade de tudo consumir ou, simplesmente, desaparecer. Porém, o coração de Deus respeita os tempos e os ritmos do coração do homem. E, à semelhança dos pobres, Ele nos convida a seguir adiante, a bater a outra porta, a outro coração.

A casa é o mundo. A família é a humanidade
Jesus, qual “vagabundo sem tecto”, não adocica as palavras pois sabe que o evangelho é uma aventura bela mas exigente. Perante os três “vocacionados” anónimos, o Mestre assume uma atitude absolutamente contrária às nossas publicidades que apregoam os produtos até lhes mascarar os defeitos. E se usa palavras duras, provocadoras e agressivas, é porque sabe que a vida floresce quando não nos atrasarmos pelo caminho e quando não nos delongarmos nostalgicamente sobre túmulos que não fecundam a vida.
Como não reconhecer-se detrás daqueles “mas”, daqueles motivos mais do que justificados e razoáveis, que antepomos ao Senhor, para escapar às exigências do evangelho? Sim, todos nós arranjamos explicações para permanecer no comodismo envelhecido e na tranquilidade diária, sem nos deixarmos seduzir pela fantasia infinita de Deus.
O discípulo que segue Jesus está voltado para o futuro, não fica enterrado nas lamentações caducas, mas olha em frente para a terra prometida, atento em manter profundo o arado, revirando a superficialidade da existência e fazendo entrar luz na terra escondida, sem comprazer-se no trilho feito, mas maravilhando-se pelo futuro a construir. Olha para Aquele que caminha à frente, certo que a vida não é um património a conservar, mas um evangelho a vivificar.


VIVER A PALAVRA
Vou tomar consciência do que é prioritário no meu caminhar diário.

REZAR A PALAVRA
Senhor, no terreno sincero da minha entrega, nascem outras metas
que transportam o Teu querer em mim para segundo plano.
Preciso o Teu Espírito de coragem para procurar primeiro o Teu refúgio
e só depois o meu consolo, primeiro o Teu alento e só depois as minhas vontades,
primeiro a Tua cruz e só depois o meu comodismo.

Aceita, Senhor, o meu sincero desejo de que a minha vondade seja a tua, seguir-te-ei!

sexta-feira, 20 de julho de 2012

XVI Domingo Comum C


Naquele tempo, os Apóstolos voltaram para junto de Jesus e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado. Então Jesus disse-lhes: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco». De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir que eles nem tinham tempo de comer. Partiram, então, de barco para um lugar isolado, sem mais ninguém. Vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam; e, de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar e chegaram lá primeiro que eles. Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-Se de toda aquela gente, porque eram como ovelhas sem pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas. (Mc 6, 30-34)

Caros amigos e amigas, o Evangelho narra o regresso dos apóstolos maravilhados após a missão sem bolsas nem sandálias, apenas ricos da novidade do Evangelho. E Jesus comove-se, seja com o cansaço dos amigos seja com a procura sedenta da multidão.

“Vinde comigo para um lugar isolado e descansai
Os discípulos regressam com as pernas cansadas mas com o olhar enriquecido pela partilha de sonhos e de sofrimentos, voltam com o coração saciado de pessoas e de encontros. E imagino a avalanche dos diálogos, cheios das experiências vividas de casa em casa. Eles retornam à fonte que é Jesus. Este, em vez de os reenviar logo na missão que urge, condu-los ao deserto, onde Deus fala ao coração, convida ao repouso, ao encontro no silêncio valorizando o “ser” sem se alienar no “fazer”. Ocorre saborear a vida, sem que o insucesso deprima e sem que o êxito envaideça.
Alguns até podem sentir-se indispensáveis, como se tudo dependesse deles e dos seus activismos vazios de sentido. Mas, os apóstolos sabem que não são a nascente; são simples semente escondida nas mãos do Semeador; são pequena grafia de uma Palavra que os ultrapassa.
Hoje, a vida é um frenesim e a pessoa uma peça da engrenagem da máquina do tempo que nunca pára. Aceitar parar com Jesus significa abandonar-se nos seus braços, reclinando a própria vida no seu coração. Repousar com Cristo é vencer a tentação de fugir de Deus e até de si próprio. É tempo para contemplar as maravilhas que Ele realiza em nós e através de nós! É tempo para narrar a beleza e saciar-se da presença amiga, enamorando-se da vida. É tempo de ir àquele santuário de beleza que só Deus pode acender.

“Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-Se”
O Evangelista fotografa, nesta frase, os olhos do Mestre e tira a radiografia do seu coração. Jesus, ao ver a multidão sem pastor, sente apertar-se-lhe a alma, deixa-se tocar no mais íntimo, onde a humanidade toca a divindade e a divindade vibra com a humanidade. Amigos, Deus comove-se! Ele também se comove por nós, como o pai pródigo no abraço ao filho mais novo ou como a mãe que se compadece nas lágrimas e sorrisos do filho.
No início da jornada Jesus tinha um programa. Contudo, está disposto a modificá-lo porque a multidão conta mais do que um calendário, porque primeiro está a ovelha perdida, porque o amor não pode esperar. A pobreza, a fome de amor, os anseios do outro… contam sempre muito mais aos ouvidos de Deus. Mesmo estando nalgum lugar isolado, o amor não faz férias, não repousa, não dá tréguas diante de alguém que estende as mãos, invocando pão e paz.

Começou a ensinar-lhes muitas coisas
Jesus não ensina teorias, mas ensina principalmente a “arte da compaixão”. Ensina a comover-se e a sentir pelo outro; ensina a beleza do amor, a brecha da misericórdia. Ocorre deixar-se comover, sem procurar desculpas, sem bloquear o milagre. Quando nos comovemos, enxertamos na nossa alma os que são motivo da nossa comoção. Com-mover-se é sempre mover-se com o outro, ao ritmo do seu coração.
O discípulo vive apaixonado de pessoas e de encontros, tem um coração insaciado de humanidade, não se cansa de partilhar os descansos de Deus, ama os silêncios que são preenchidos pela sua voz. E Jesus ensina a reconquistar o íntimo, a retomar nas mãos o tempo, a renovar o sentido e a profundidade da vida, a redescobrir o único pastor que a orienta. E isso, caros amigos e amigas, é Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Quero repousar com o Senhor e no Senhor, um repouso vigilante e atento aos irmãos.


REZAR A PALAVRA
Senhor, meu refúgio, descanso e segurança, meu abrigo, guarda e protetor,
trago comigo os ecos da missão, o suor do caminho percorrido,
preciso o teu colo de pai que me abraça e torna mais leve o meu cansaço,
preciso a tua ternura de mãe que me embala e torna mais sereno o pulsar.
Dás-me a certeza do teu estar, da tua força, do teu olhar compassivo,
dás-me a certeza do teu cuidar, do teu carinho, do teu segredo libertador.
Ensina-me a descansar em ti, a recuperar em ti, a serenar em ti!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Pescador da Humanidade - III Domingo Comum C

Quando Jesus ouviu dizer que João Baptista fora preso, retirou-Se para a Galileia. Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum, terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali. Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer: «Terra de Zabulão e terra de Neftali, caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte, uma luz se levantou». Desde então, Jesus começou a pregar: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus». Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me, e farei de vós pescadores de homens». Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O. Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu, a consertar as redes. Jesus chamou-os, e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n’O. Depois começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo. (Mt4, 12-23)


Caros amigos e amigas, da sua cidade de Nazaré Jesus transfere-se para o coração da Galileia, para uma região nada prestigiosa, pobre e nas margens da fé. Aqui, onde ninguém o espera nem o deseja, Jesus escolhe anunciar o Reino de Deus. A partir de agora Ele será profeta pelos caminhos, nómada de Deus à procura dos que estavam perdidos e imersos nas trevas.

Ser a Galileia de Deus
Jesus passa entre gente humilde e esquecida e vê, numa casa de pescadores à beira de um lago desconhecido, a sua Igreja. Esta nasce ali, nas margens dum mar, num lugar de encontros, de partidas e chegadas, num cais de relações, de pessoas habitadas por outras. A Igreja é o contínuo caminhar de Deus ao encontro do homem.
Deus é um apaixonado que vai até onde ninguém o espera, nos confins da história e da vida. Um Deus capaz de sair dos momentos “sagrados” para intrometer-se no território da nossa existência, mesmo quando nos sentimos distantes, por vezes submersos nas sombras, para trazer a luz! Ainda hoje, Jesus caminha no nosso mar, escolhe habitar na nossa Galileia, encosta-se aos nossos trabalhos e preocupações, chama-nos pelo nome e convida-nos a ir com Ele. Cada lugar, cada tempo, cada situação é digno do amor de Deus! Nada, ninguém, nem nenhuma situação, por mais escura que seja, está longe do olhar e do aproximar-se de Deus.

Pescadores da humanidade
Entre mil vozes e rumores aquele rosto é inconfundível e aquelas palavras ecoam como únicas. Naquele olhar até os pescadores mais experientes naufragaram! Jesus chama os pescadores e esses descobrem que dentro de si não há apenas as rotas do lago, mas existe o mapa do céu, do mundo e do coração do homem. Sonhavam com um horizonte mais largo do que o mar e encontraram a vastidão do mundo. Sonhavam com barcas cheias de peixe e um dia ficarão admirados com uma multidão saciada e as sobras de doze cestos. Sonhavam libertar-se daquelas jangadas debaixo das trevas e encontraram uma luz deslumbrante. Sonhavam apenas com o próprio dia-a-dia e passaram a fazer parte do sonho de Deus.
Ainda hoje aquele “segue-me” é um convite para deixar as redes que nos aprisionam, para nos tornarmos pescadores da própria humanidade esquecida, para descobrir dentro do coração o mapa do coração de Deus. Naquele chamamento divino a fragilidade humana floresce e é convertida à vida.

O amor renova a vida
Jesus vê em Simão a pedra na qual fundará a sua comunidade; em João vê o discípulo das mais belas palavras de amor; um dia avistará em Mateus a pronta conversão do coração e na oferta da viúva no templo verá toda uma vida doada. O olhar de Jesus é um olhar criador, é profecia. Olha também para mim e no meu mar avista um tesouro, no Inverno da minha vida vê o grão que germina, descobre uma generosidade que desconhecia, uma melodia que ignorava. Deus faz-nos sempre nascer de novo. Porque quem experimenta o Amor, mesmo se morto, pode nascer. Só o amor faz viver! E Jesus ainda hoje passa e reacende a vida, deixando um rasto de milagres e esperanças. E isso, caros amigos, é Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Quero identificar os pontos mais escuros do meu viver e expô-los à luz do Evangelho de Jesus.

REZAR A PALAVRA
Senhor, pescador de corações sedentos,
vem habitar em mim, sombria região da morte, que grita pela tua vida...
Senhor, que abraças o meu querer inconstante,
toca a minha história, para que o meu sonho seja o teu...
Senhor, segredo do meu mar interior, convida-me...
para que deixe as redes que me prendem a um mar que não responde à minha fome...
para que deixe o barco que me conduz a viagens vazias de sentido.
Eis-me na tua rede, no teu barco...deixo-me...quero seguir-te...