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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

II Domingo Quaresma B



Evangelho segundo S. Marcos 9, 2-10
Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles. As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear. Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias». Não sabia o que dizia, pois estavam atemorizados. Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O». De repente, olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, sozinho com eles. Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos. Eles guardaram a recomendação, mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos».

Caros amigos e amigas, do deserto silencioso e das provocações tentadoras do passado Domingo somos conduzidos, no Evangelho de hoje por Jesus, até ao esplendor da luz e tranquilizados pela voz do Pai. Sim, Deus converte a nossa história, entretecida de mortes e de sombras, num poema de vida e de luz.

Interpelações da Palavra
Descobrir a beleza de Deus
Não era a primeira vez que Jesus os tomara à parte consigo, mas hoje queria mostrar-lhes um sinal, uma recordação que lhes fortalecesse a vigília amarga no horto das oliveiras e no alto do calvário. No monte os discípulos descobrem que o Mestre, coberto de uma veste desbotada pelo sol e pela chuva, com a face enrugada pelo cansaço e pelos jejuns, resplandecia agora de uma inefável beleza, a beleza de Deus figurada em rosto humano! Aquela luz fulgente toca antecipadamente a sombra iminente da paixão, mas revela também o clarão da ressurreição. Na transfiguração nada é perdido, mas tudo é iluminado porque trespassado pela luz divina. Dentro da nuvem, no mistério de Deus, cada instante e pessoa adquire a sua beleza infinita, na certeza de que os momentos de claridade sustentam o caminho e conduzem ao dia sem ocaso! Só encontrando a glória e a beleza de Deus conseguimos enfrentar a cruz.

Mestre, como é bom estarmos aqui!
A fé nasce sempre de uma admiração, um encanto, um enamoramento, de um “que lindo!” gritado a pleno coração! Pedro é seduzido não pelos milagres, pela omnipotência divina ou pelo fascínio do infinito, mas pela beleza do rosto de Cristo. O olhar transfigurado de Jesus, verdadeiro espelho da alma, é a grafia de um coração de luz. Só aqui o homem se sente finalmente em casa. Só nesta contemplação o homem intui o paraíso. O céu é Jesus! O nosso destino é esta luz, nunca o mal e as trevas. Em cada um de nós está semeado um caminho de luz, uma via-lucis que aclara a necessária entrega da via-crucis.

A humanidade está grávida de luz!
Quando Deus passa na vida, quando por um momento Ele descobre o véu da sua face, então nada fica como antes. De facto, através dos instantes de beleza semeados na caravana cinzenta da nossa vida, Deus tece connosco uma história de amor. Porque a história do amor de Deus ficaria incompleta sem nós!
Nós tornamo-nos sempre aquilo que vemos e escutamos. Contemplar Jesus e escutar a sua Palavra cura o passado, incendeia o presente, ilumina o futuro, muda o coração, dá beleza, é luz para a noite. Quem acreditaria que uma prostituta, com um frasco de perfume aos pés de Jesus, seria apresentada como modelo, na beleza do seu gesto? Quem acreditaria que um ladrão crucificado faria brilhar para nós a luz do paraíso? Quem acreditaria que o corpo desfigurado do Crucificado se tornaria a verdadeira imagem do amor dado até ao fim? Quem acreditaria que o seu cadáver deposto na escuridão do sepulcro ressuscitaria glorioso na luz da aurora da Páscoa? Caros amigos e amigas, só experimentando a beleza de Deus seguimos o Evangelho!


Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Senhor Jesus, olha como tantas miragens, tantas luzes sem luz, me despistam a visão;
Repara, Jesus, como o brilho de um trinunfo fácil, me faz subir a presunções, palcos e tribunas,
Vê, Jesus, como as tendas do comodismo me cravam na terra os pés, sedentos de caminhos…
E agora, por amor, me convidas a subir o teu monte para estar contigo: subirei, Senhor!
E agora a tua luz rasga-me a beleza com que anseio identificar o meu rosto… no teu rosto.
E agora, Filho amado, uma voz de amor me descerra que só Tu me podes ensinar a filiação.
E, por amor, me convidas a descer, a caminhar contigo até à entrega da vida; descerei, Senhor!

Viver a Palavra

Vou deixar regenerar a minha vida espiritual em momentos de encontro com o Senhor.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

V Domingo Comum B


Evangelho segundo S. Marcos 1, 29-39
Naquele tempo, Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, a casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama com febre e logo Lhe falaram dela. Jesus aproximou-Se, tomou-a pela mão e levantou-a. A febre deixou-a e ela começou a servi-los. Ao cair da tarde, já depois do sol-posto, trouxeram-Lhe todos os doentes e possessos e a cidade inteira ficou reunida diante da porta. Jesus curou muitas pessoas, que eram atormentadas por várias doenças, e expulsou muitos demónios. Mas não deixava que os demónios falassem, porque sabiam quem Ele era. De manhã, muito cedo, levantou-Se e saiu. Retirou-Se para um sítio ermo e aí começou a orar. Simão e os companheiros foram à procura d’Ele e, quando O encontraram, disseram-Lhe: «Todos Te procuram». Ele respondeu-lhes: «Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar aí também, porque foi para isso que Eu vim». E foi por toda a Galileia, pregando nas sinagogas e expulsando os demónios.

Caros amigos e amigas, da Sinagoga de Cafarnaum, Jesus parte para o aconchego de uma família; do anúncio do Reino pela Palavra, Jesus passa ao anúncio através dos gestos de cura. Da casa passa à cidade e da cidade a “outros lugares”, ao mundo… Hoje chega aqui! O Evangelho de Jesus é para todos os tempos e lugares.

Interpelações da Palavra
Tomou-a pela mão e ela levantou-se
Começa pela casa de Simão. Este gesto de tomar pela mão e levantar é próprio de Jesus e daqueles que Lhe seguem os gestos. Um gesto familiar, de proximidade. Através do calor da sua mão, Ele deixa correr para a nossa a seiva que lhe passa no coração! Então ficamos irrigados do seu dinamismo e não podemos deixar de nos levantar de todas as prostrações. Ele faz-nos caminhar e devolve-nos a autonomia do serviço. Aquele que se deixa levantar por Jesus, ganha a agilidade dos peregrinos, a iniciativa dos obreiros da paz. Jesus confronta todos os “sábados estéreis”, todos os descansos infecundos e até desumanos, todas as hesitações tímidas ou comodistas, toda a inércia cúmplice do mal.
Naquele dia abateu-se sobre Cafarnaúm a profecia de Isaías como nunca tinha sido provada. A esperança de todos os que padeciam de enfermidades ganha vigor. Talvez na expressão “todos os doentes” possamos incluir “todas as doenças” e a integridade de cada “doente”. Será que alguém em Cafarnaúm ficou fora da lista? É que em vez de notificarmos Jesus acerca das doenças dos nossos órgãos fisiológicos precisamos de nos oferecer ao seu olhar, na totalidade do nosso ser, correndo o risco de que Ele nos levante e já não nos seja possível deixar de caminhar…

Retirou-se… começou a orar
Marcos nem tem tempo para falar do repouso de Jesus. Tudo n’Ele é dinamismo, porque agora Jesus também se levanta e sai... E aqui está de onde lhe vem o dinamismo. Estamos curiosos por saber como seria a oração de Jesus. Mas a descrição, apesar de breve, deixa-nos dados preciosos. Este “muito cedo” indica-nos qual era o alicerce dos dias de Jesus. Os seus gestos são reflexos do esplendor de um coração que se sente amado e que se deixa amar, por isso são gestos de amor. As palavras de Jesus alimentam-se desta intimidade dialogante com o Pai, por isso são palavras criadoras. O olhar de Jesus acende-se na alegria de ser olhado pelo artífice do universo, por isso é um olhar iluminante. Temos assim a fórmula para alcançar a plenitude dos dias: dias enraizados na comunhão com o Pai celeste.

Vamos a outros lugares
Não podemos ficar aqui a saborear os êxitos vaidosos, a rever-nos e a consolar-nos com uma obra própria. Não podemos encerrar no nosso controle a graça de Deus que se multiplica pela fecundidade do Espírito Santo. Ajudemos os irmãos a levantarem-se, também os que nem se sentem caídos, mas não cometamos a loucura de lhes manipular os movimentos; deixemos que caminhem livres, que tomem a iniciativa do serviço, amparados pela força do Alto...
Não sejamos semeadores que controlam os dinamismos e os ritmos da terra, mas confiam na força da graça e partem logo para outras sementeiras. Vamos a outros lugares, amigos e amigas, cruzemos as fronteiras dos preconceitos, não adiemos o amor, visitemos as dores dos irmãos, caminhemos pelos desertos tristes que nunca ouviram som de passos, pelas terras duras que nunca conheceram a água fecunda da Palavra. Vamos, partamos… semeando o Evangelho!



Rezar a Palavra e contemplar o Mistério

Senhor, vivo prostrado na febre das coisas que me afastam do irmão
e me detêm na solidão do meu querer e dos meus projetos desnudados de amor.
Vivo atormentado pela doença de me achar dono da vida, detentor da história
e possuído por demónios que não falam o amor e a comunhão.
Vivo perdido no espaço de cada gesto e procuro o caminho e a meta fora de Ti.
Mas Tu és a cura e a Palavra, Tu és a força e a sabedoria…
Cura-me, ensina-me, levanta-me e envia-me!

Viver a Palavra

Vou redescobrir na oração da vida a força e o discernimento para a missão.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

II Domingo Comum B


Evangelho segundo S. João 1, 35-42
Naquele tempo, estava João Baptista com dois dos seus discípulos e, vendo Jesus que passava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus». Os dois discípulos ouviram-no dizer aquelas palavras e seguiram Jesus. Entretanto, Jesus voltou-Se; e, ao ver que O seguiam, disse-lhes: «Que procurais?». Eles responderam: «Rabi – que quer dizer ‘Mestre’ – onde moras?». Disse-lhes Jesus: «Vinde ver». Eles foram ver onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Era por volta das quatro horas da tarde. André, irmão de Simão Pedro, foi um dos que ouviram João e seguiram Jesus. Foi procurar primeiro seu irmão Simão e disse-lhe: «Encontrámos o Messias» – que quer dizer ‘Cristo’ –; e levou-o a Jesus. Fitando os olhos nele, Jesus disse-lhe: «Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas» – que quer dizer ‘Pedro’.

Caros amigos e amigas, este delicioso texto traz-nos o encanto que eclode no início de algumas histórias de amor. Quanto nos podemos rever nestes discípulos fascinados pela força de um olhar! Para mim e para ti é hora de regressar àquele momento que conserva intacto o motivo da nossa felicidade: sentir-nos amados por Ele!

Interpelações da Palavra
Cruzamento de olhares
Nesta pequena passagem impressiona o número de vezes que é referido o verbo ver nas mais diversas conjugações. É o olhar atento de João, o olhar ávido dos discípulos, o olhar penetrante de Jesus. Quase sempre é a partir de um olhar, de uma mínima cumplicidade que se desenrolam as mais belas histórias de amor. O olhar é a janela mais generosa do ser, de onde derramamos o que somos e onde entra a primeira letra de qualquer narração. Aquela hora de luz fica registada nos autos mais perenes da nossa memória, quando a fagulha de um olhar nos faz compreender quem somos e para onde estamos chamados. Que bom que João não sofria desse devastador “Alzheimer” espiritual que endurece o coração de cepticismo! Lembrava-se bem dessa hora única na sua vida, esse ponto de fogo! Lembrava-se que fora às quatro da tarde, hora perigosa em que o sol quase tombava nos montes, e o crepúsculo ameaçava trazer as trevas, em que a certeza da luz unicamente se concentrou naquele Rabi que o Baptista anunciara como o “Cordeiro de Deus”.

O desejo de permanecer sob um olhar
À pergunta de Jesus, os discípulos parecem desconversar, respondendo com outra pergunta atrevida, talvez pretexto para uma aproximação mais comprometida. Como se fosse um receio humano a precaver-se da insegurança que um exterior sempre provoca. É ousado, indiscreto mesmo, perguntar a alguém onde mora! É como se nos insinuássemos como hóspedes a alguém. A morada de Jesus corresponde a um espaço de intimidade que afinal os discípulos desejam entrever, participar e… não há descrições cabais, apenas a experiência lhes pode bastar. E sim, Jesus convida-os à experiência da sua morada. E ficaram com Ele nesse dia. Esse dia era a sua vida! Porque é diferente ter uma morada ou tê-Lo a Ele como morada. O que eles desejavam era encontrar esse espaço, íntimo e recatado, onde pudessem permanecer sob o caudal dos Seus olhos. Ali, onde teria origem a alegria, onde regenerariam as forças. Não importava que fosse um telhado ou antes um céu, onde as estrelas ou o sol lhes dissessem segredos; não importava que fossem paredes ou apenas as cores do frio e do calor que os aconchegassem do relento subjugador da arbitrariedade. Era naquele olhar que sentiam um abrigo para a sua insegurança. Era aí que desejavam permanecer!

Testemunhos incendiados
A experiência de Deus não é coisa de guardar em stock. Ela queima por dentro! A experiência de Deus faz-nos explodir de nós mesmos. Neste texto, Jesus é apresentado através de uma cadeia de testemunhos. De João Baptista passa aos discípulos, destes a Pedro… João Evangelista escreve para nós. É maravilhoso pensar que o Nome de Jesus nos foi legado, de boca em boca, através dos séculos e que herdámos, com o Nome, vivências de fé e de santidade sobre as quais caminhamos… porque o discipulado não se consuma enquanto Jesus não nos olha nos olhos para nos revelar o nosso próprio nome! Como André a Pedro, aqui está o grande objectivo da transmissão do nosso testemunho: fazer discípulos de Jesus. A maior expressão de caridade que podemos ter é anunciar a alegria de ter encontrado Jesus e que Ele é o “Cordeiro de Deus!” é sermos perfume e sabor, melodia e cor, textura do Evangelho!

Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Senhor da interpelação, da pergunta e da proposta,
Porque Te procuro, porque me chamas, porque me olhas?
Senhor da interpelação, da pergunta e da proposta: os Teus olhos viram os meus,
tocaram a cor do meu (in)finito, descobriram a minha identidade;
as Tuas palavras disseram o meu nome, questionaram o meu “quem”,
desenharam um sentido de mim; a Tua morada é o espaço do meu seguir,
a meta e a partida, anseio do meu coraçação peregrino. Eis-me aqui…

Viver a Palavra

Vou descobrir sinais da procura de Deus por mim.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

III Domingo Páscoa C




Naquele tempo, Jesus manifestou-Se outra vez aos seus discípulos, junto do mar de Tiberíades. Manifestou-Se deste modo: Estavam juntos Simão Pedro e Tomé, chamado Dídimo, Natanael, que era de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e mais dois discípulos de Jesus. Disse-lhes Simão Pedro: «Vou pescar». Eles responderam-lhe: «Nós vamos contigo». Saíram de casa e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada. Ao romper da manhã, Jesus apresentou-Se na margem, mas os discípulos não sabiam que era Ele. Disse-lhes Jesus: «Rapazes, tendes alguma coisa de comer?». Eles responderam: «Não». Disse-lhes Jesus: «Lançai a rede para a direita do barco e encontrareis». Eles lançaram a rede e já mal a podiam arrastar por causa da abundância de peixes. O discípulo predilecto de Jesus disse a Pedro: «É o Senhor». Simão Pedro, quando ouviu dizer que era o Senhor, vestiu a túnica que tinha tirado e lançou-se ao mar. Os outros discípulos, que estavam apenas a uns duzentos côvados da margem, vieram no barco, puxando a rede com os peixes. Quando saltaram em terra, viram brasas acesas com peixe em cima, e pão. Disse-lhes Jesus: «Trazei alguns dos peixes que apanhastes agora». Simão Pedro subiu ao barco e puxou a rede para terra, cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e, apesar de serem tantos, não se rompeu a rede. Disse-lhes Jesus: «Vinde comer». Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar-Lhe: «Quem és Tu?», porque bem sabiam que era o Senhor. Jesus aproximou-Se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com os peixes. Esta foi a terceira vez que Jesus Se manifestou aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado dos mortos. Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: «Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?». Ele respondeu-Lhe: «Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo». Disse-lhe Jesus: «Apascenta os meus cordeiros». Voltou a perguntar-lhe segunda vez: «Simão, filho de João, tu amas-Me?». Ele respondeu-Lhe: «Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo». Disse-lhe Jesus: «Apascenta as minhas ovelhas». Perguntou-lhe pela terceira vez: «Simão, filho de João, tu amas-Me?». Pedro entristeceu-se por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez se O amava e respondeu-Lhe: «Senhor, Tu sabes tudo, bem sabes que Te amo». Disse-lhe Jesus: «Apascenta as minhas ovelhas. Em verdade, em verdade te digo: Quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias; mas quando fores mais velho, estenderás a mão e outro te cingirá e te levará para onde não queres». Jesus disse isto para indicar o género de morte com que Pedro havia de dar glória a Deus. Dito isto, acrescentou: «Segue-Me».

Caros amigos e amigas, nesta página Jesus ressuscitado ressuscita os discípulos desanimados. É no diálogo de amor que se superam as incertezas, as fragilidades e traições anteriores e se renova a vida.

Uma narração de ressurreição
Todo o texto, revestido de um ar primaveril e familiar, é o relato da ressurreição dos discípulos: a passagem da noite para a luz, da ignorância para o reconhecimento de Jesus, da improdutividade para a pesca abundante, do nada ter para comer para o banquete preparado por Jesus. A presença do Ressuscitado, até na nossa vida, produz sempre mudanças e recria a comunidade.

Reacender a vida
É uma noite amarga a de Pedro e dos amigos, reflexo de quem viu naufragar um sonho, uma pessoa, uma vida. Fechados na sua incerteza e fraqueza, depois do parêntesis místico, voltam à dura realidade no lago onde tudo tinha começado. Se por um lado eles retornam ao antigo trabalho de pescadores, por outro lado Jesus continua a sua actividade de amor. Pedro retoma as redes de pesca e Jesus retoma as relações de amor ali onde tinham parado, no jardim das oliveiras.
A fé nunca é um dado adquirido para sempre, como carimbo inapagável e garantido no passaporte da vida. É uma relação de amor, um conhecer progressivo que aquece o coração e alimenta a vida. E, como sempre, Jesus espera por nós no fim da noite mais escura.

“Tu, amas-Me”?
Jesus interroga Pedro e leva a confessar por três vezes o amor àquele que o tinha negado também três vezes por temor! “Enquanto Cristo morria na cruz, Pedro morria negando. O Senhor Jesus ressuscita dos mortos e, no seu amor, ressuscita Pedro” (S. Agostinho). Também como Pedro somos arrastados para a ressurreição! Criados para a vida, nada nos poderá separar do Amor!
No diálogo com Pedro vemos um dos diálogos mais fascinantes da história de Deus que procura o homem. E quando Jesus interroga a Pedro interroga-me a mim e a ti. A repetição da questão talvez seja mais importante do que a nossa resposta. Não importa mais as negações e os erros passados. Importa apenas o Amor que procura e pede amor. Nada mais! Naquela eterna pergunta, renovada incansavelmente, Deus torna-se apaixonadamente o mendigo do amor! E isso é Evangelho!


VIVER A PALAVRA
Quero revestir o meu olhar de amor para te reconhecer nas circunstâncias da vida.

REZAR A PALAVRA
Quando as minhas mãos apertarem as redes de uma noite de pesca sem fruto
traz à margem da minha vida, Senhor, a luz da tua aurora;
E faz que o calor da tua voz alimente a minha débil esperança.
Com as brasas do teu amor, Senhor, aquece o meu coração e alimenta-me da tua presença.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

V Domingo Comum C




Naquele tempo, estava a multidão aglomerada em volta de Jesus, para ouvir a palavra de Deus. Ele encontrava-Se na margem do lago de Genesaré e viu dois barcos estacionados no lago. Os pescadores tinham deixado os barcos e estavam a lavar as redes. Jesus subiu para um barco, que era de Simão, e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra. Depois sentou-Se e do barco pôs-Se a ensinar a multidão. Quando acabou de falar, disse a Simão: «Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca». Respondeu-Lhe Simão: «Mestre, andámos na faina toda a noite e não apanhámos nada. Mas, já que o dizes, lançarei as redes». Eles assim fizeram e apanharam tão grande quantidade de peixes que as redes começavam a romper-se. Fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para os virem ajudar; eles vieram e encheram ambos os barcos, de tal modo que quase se afundavam. Ao ver o sucedido, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse-Lhe: «Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador». Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele e de todos os seus companheiros, por causa da pesca realizada. Isto mesmo sucedeu a Tiago e a João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. Jesus disse a Simão: «Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens». Tendo conduzido os barcos para terra, eles deixaram tudo e seguiram Jesus.

Caros amigos e amigas, Lucas narra a vocação dos primeiros discípulos. Fala-nos daquele imenso amor de Jesus que faz passar de uma noite estéril de desilusões para um dia audaz de decisões!

“Faz-te ao largo e lançai as redes”
Tinha sido uma canseira inútil. Pedro, desiludido, reflecte a noite escura e infrutuosa, após ter lutado contra as ondas do lago e a greve dos peixes. De mãos vazias, regressa à margem onde encontra Jesus que lhe pede hospitalidade na sua barca e de fazer-se ao largo. Talvez tenha sorrido interiormente, vendo a inexperiência do carpinteiro na faina da pesca. Contudo, aceita o desafio e lança de novo as redes.
O pedido de Jesus é insensato e absurdo, mas a sua palavra enche o coração e as redes de confiança. O Mestre sobe na barca de Pedro, deixa a terra firme e abandona-se à imprevisibilidade do mar. É também Ele que sobe na barca da nossa vida, tantas vezes, vazia. É Deus que abandona os céus à nossa procura e nos alcança também no fim de uma noite infrutuosa, no momento menos místico que possamos imaginar. E roga-nos um gesto de confiança, aparentemente inútil, de lançar as redes para o lado pobre da nossa vida, de não contar sobre as próprias capacidades, mas de ter fé. E pede-nos para recomeçar com aquele pouco que temos e sabemos, confiando-nos um novo mar.

O milagre do Evangelho
A abundância do peixe quase afunda o barco. Contudo, o maior milagre do Evangelho não é a barca sobrecarregada, nem as redes abandonadas. O milagre é Jesus que não se deixa impressionar pelo cansaço, desilusão, temor ou pecado de Pedro. O verdadeiro prodígio é Jesus que, face à infertilidade, levanta a coragem e recomeça um futuro novo desde o lugar onde tínhamos desistido. A maravilha é Jesus que nos vem ao encontro e nos confia o Evangelho ali onde tudo parecia ter secado e escurecido. O verdadeiro milagre é o arriscar e o confiar de Jesus em Pedro e em seus companheiros. Eles seguem-No porque já antes Jesus subira na sua barca! Deus antecipa-Se sempre à nossa procura. O milagre é uma resposta ao Amor obstinado do nosso Deus que torna o mar avarento e inquieto da nossa vida num lugar de riqueza e de encontro.
Jesus lê o interior de Pedro e acredita que a fragilidade do pescador pode encher-se de um precioso tesouro. Ainda hoje, o Mestre pede-nos aquela capacidade de coragem e fecundidade adormecida em cada um de nós. Para Jesus, o bem do amanhã vale mais do que o mal de ontem, e as redes cheias de hoje valem mais do que todos os falhanços do passado.

“Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens”
Como Pedro, não basta dizer que somos pecadores; não basta gritar para Deus se afastar ou fugir da sua presença e, assim, fecharmo-nos ao milagre e a novos horizontes. Porque ainda hoje ecoa nas margens do nosso coração este convite a ir mais longe, a lançar redes e laços de amor, a aprofundar o sentido da vida, a ser pescador da humanidade, a fazer desabrochar toda a beleza dos filhos de Deus.
Só o amor de Deus faz florescer em desmedida a humanidade que há em nós. Só o amor, caros amigos e amigas, é o segredo do Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Vou cultivar a audácia de acreditar, de confiar no poder do amor de Deus.

REZAR A PALAVRA
Senhor, assustam-me os tumultos do mar à minha volta, tenho a vontade atada de pessismismos,
as incertezas, a pobreza do meu coração desencorajam-me mais uma tentativa...
Vem abrir a porta ao milagre, Senhor da Vida, afunda-me na Tua Palavra,
liberta as redes do meu medo, e molda no meu coração um coração de discípulo.
É a hora de ser pesca, de ser isco e de ser pescador no mar do Teu amor!   

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

XXIV Domingo Comum B


Naquele tempo, Jesus partiu com os seus discípulos para as povoações de Cesareia de Filipe. No caminho, fez-lhes esta pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?». Eles responderam: «Uns dizem João Baptista; outros, Elias; e outros, um dos profetas». Jesus então perguntou-lhes: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias». Ordenou-lhes então severamente que não falassem d’Ele a ninguém. Depois, começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas; de ser morto e ressuscitar três dias depois. E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas. Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O. Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens». E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á».

Caros amigos e amigas, o Evangelho de hoje é um convite para uma fé como adesão pessoal, num encontro profundo e directo com Cristo.

Perguntas e respostas que implicam a vida
Imagino aquele olhar de Jesus fixo em mim enquanto ecoa continuamente aquela eterna pergunta: “e tu quem dizes que eu sou”? E eu, sem saber o que responder, preferia dizer algo banal, alguma resposta já feita das sondagens de opinião ou alguma bonita frase decorada mas sem vida…
Bem sei que, antes de qualquer resposta pessoal, esta é uma pergunta para amar, para viver, para escutar dentro. Por isso, só uma resposta que toca o coração, que implica o nervo da vida, que também diga quem eu sou, será verdadeira. A verdadeira resposta é só minha, com o meu coração, experiência, entendimento, fragilidade. E, no silêncio da alma, naquele lugar onde os amantes se encontram, poderia responder: “não, não me és indiferente, mesmo que não saiba o que te dizer”.

Pedro e Jesus
Em Pedro reconhecemos os “altos” e os “baixos” da nossa fé. Algumas vezes, temos uma fé viva, alimentada pela beleza das palavras de Jesus. Outras, sentimo-nos áridos e não aceitamos o estilo, a mensagem e a lógica do Evangelho. Gostamos do Jesus salvador, mas desdenhamos o Jesus sofredor, condenado e morto. Pedro exalta-se, e nós também, com o escândalo da cruz. Escândalo de um Deus impensável: que sofre e morre, vencido numa cruz indecente! A essência do cristianismo é a contemplação do rosto do Deus crucificado (Card. Martini). Só um Deus que sofre é capaz de entrar na dor dos seus filhos e compreender a cruz de cada um.

“Se alguém quiser…”
É aquele “se” tão pequeno que muda tudo. Parece que naquela palavra Jesus me estende a cruz dizendo-me que não sou o centro do mundo, nem a medida de tudo. Segui-Lo, caminhando perto Dele, trilhando as suas pegadas, porque diante do discípulo não está uma cruz vazia, nem um pedido de sofrimento, mas o Crucificado. Só Jesus torna a cruz digna de ser seguida e abraçada!
Jesus fala de sofrimento, exclusão, morte… e de ressurreição. E curiosamente os apóstolos parecem não ouvir esta última palavra. Nós também não. Nunca escutamos Deus até ao fim!
Deus é uma eterna pergunta. E a resposta evidente é-nos dada em Jesus. Deus é Jesus, é aquele modo de vida, aquele modo de morrer e também aquele modo de ressuscitar! Caros amigos e amigas, só Jesus é o Evangelho!

VIVER A PALAVRA
Vou aplicar-me na descoberta do segredo que, da minha relação com o Senhor, me faz Sua mensagem.

REZAR A PALAVRA

Senhor, hoje quero ouvir a tua pergunta, sem me furtar ao fogo do teu olhar!
Também aprecio o que os outros dizem, procuro opiniões e falo muito de Ti...
Leio tratados de cristologia e a boca diz vazios, sem perguntar nada ao coração.
 Mas hoje quero que esta pergunta mergulhe até ao fundo da minha verdade.
Deixarei que seja o Teu Espírito a escrever a resposta, com a agudeza da Cruz,
que liberta a tinta do amor, no papel disponível da minha vida, hora a hora.
Não raro,também sinto uma curiosidade incontível: E eu quem sou para ti?!
Mas a minha definição está em Ti e, na medida em que te procuro, Tu revelas-me.